A crise política e bancária que derrubou o presidente Santiago Peña e fechou o banco Ueno colocou em stand-by estudos de viabilidade para novos aportes de empresas brasileiras no país vizinho. Investimentos já consolidados seguem intocados, mas a janela de novas oportunidades fechou-se nas últimas duas semanas.
Roger Maciel, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Paraguai, confirma: não há movimento de retirada, apenas uma pausa forçada na análise de riscos. A entidade aguarda definições institucionais para retomar os projetos em carteira.
O que paralisou a máquina de novos negócios
A cadeia de eventos começou com a liquidação do banco digital Ueno, controlado pelo Grupo Vázquez — do qual Peña foi acionista até março de 2025. O Banco Central paraguaio identificou insuficiência de recursos para cobrir obrigações, sobretudo empréstimos a empresas ligadas ao próprio grupo controlador.
Na esteira da intervenção, renunciou o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo Spalding, ex-executivo do Ueno. Dias depois, o Congresso destituiu Peña via impeachment e o ex-presidente foi preso em Assunção.
Números que explicam o abalo
- 3 milhões de clientes afetados diretamente pelo fechamento do Ueno
- US$ 850 milhões em depósitos públicos concentrados na instituição
- Recursos do Instituto de Previdência Social paraguaio entre os valores retidos
- Queda de 70% no consumo interno nos dias de maior tensão
A comparação com a crise do Banco Master no Brasil é inevitável, mas Maciel aponta diferença de escala: “O Master causou dano maior em valor absoluto, mas foi diluído na economia brasileira. O Ueno é menor, porém seu impacto é proporcionalmente muito mais devastador para o Paraguai.”
Da rua para a normalidade relativa
Protestos massivos tomaram as ruas na terça-feira (3), com mercados vazios e comércio paralisado. A restituição parcial dos valores aos depositantes e a destituição de Peña arrefeceram os ânimos. No sábado, Maciel já relatava “retomada à normalidade” no movimento comercial.
O alívio social, contudo, não resolve a incerteza regulatória. Estudos de viabilidade para novos investimentos brasileiros — setores de logística, agronegócio, energia e indústria — permanecem congelados.
O que observar nas próximas semanas
A Câmara de Comércio projeta que a paralisia nos estudos dure mais uma semana, no mínimo. Três variáveis ditarão a retomada:
- Nomeação e independência do novo presidente do Banco Central paraguaio
- Conclusão do processo de liquidação do Ueno e pagamento integral aos credores
- Sinais de estabilidade do governo interino e agenda de reformas financeiras
Enquanto isso, o capital brasileiro já instalado — estimado em bilhões de dólares em infraestrutura, usinas hidrelétricas binacionais e cadeias agroindustriais — mantém operações normais. O recado do setor privado é claro: confiança no ativo, cautela no novo aporte.
Para quem monitora a fronteira, o termômetro não está nas manchetes políticas, mas na reabertura das linhas de crédito interbancárias e na velocidade de ressarcimento dos depositantes do Ueno. Quando o dinheiro voltar a circular sem travas, os estudos voltarão à mesa.
