A 45ª Expoferr deve movimentar R$ 1 bilhão até sábado (5) em Boa Vista, mas o verdadeiro termômetro da economia real está escondido no pavilhão da agricultura familiar. Lá, 900 mil visitantes encontram muito mais que queijo e doce de leite.
Produtores de assentamentos e comunidades indígenas transformaram o Parque Dandãezinho em uma vitrine de bioeconomia amazônica. O faturamento individual ainda é modesto, mas o volume agregado sinaliza uma cadeia produtiva pronta para escalar.
O que move R$ 1 bilhão em cinco dias
A feira, promovida pelo Governo de Roraima via Seadi e Faerr, não é só agronegócio de larga escala. A programação mistura inovação tecnológica, entretenimento e o pavilhão que concentra a produção de base familiar — muitas vezes invisível nas estatísticas oficiais.
Segundo a organização, a meta de público supera 900 mil pessoas. Cada visitante representa ticket médio potencial para produtos que não entram nas commodities tradicionais: farinha de mandioca artesanal, tucupi, pimentas nativas, cosméticos de buriti e castanha-do-pará.
Da feira do Sebraé para a vitrine estadual
“Lá no meu sítio, a gente só tem uma saída, que é a feira do Sebrae. Quando aparece uma oportunidade como essa a gente aproveita”, relata uma produtora do interior. A fala resume o gargalo logístico de quem produz qualidade, mas esbarra na distribuição.
Ayzzar Leite, do Projeto de Assentamento Novo Passarão, participa pelo terceiro ano consecutivo. A expectativa dela é direta: “que as vendas melhorem ainda mais”. O portfólio inclui doces de banana, mamão, leite e buriti, além de torresmo, pururuca, paçoca, mixira, banha de porco e castanha.
Bioeconomia na prática: cosméticos e biojoias
O pavilhão vai além da alimentação. Sabonetes de ervas desidratadas, óleos vegetais, velas aromáticas, produtos para massagem e perfumes ocupam prateleiras ao lado dos alimentos. Matérias-primas: buriti, castanha-do-pará, sementes nativas.
Artesãos de diferentes etnias comercializam biojoias feitas manualmente com sementes da região. Não é artesanato decorativo — é design com identidade territorial, rastreabilidade e apelo de mercado internacional.
- Alimentos: queijos, coalhadas, farinhas, beiju, galinha caipira, peixe, doces de frutas nativas
- Derivados suínos: torresmo, carne na lata (mixira), banha, pururuca
- Cosméticos naturais: sabonetes, óleos, velas, perfumes à base de buriti e castanha
- Artesanato indígena: biojoias, peças em sementes, fibras e madeiras certificadas
O elo que falta para escalar
O volume de negócios projetado (R$ 1 bi) contempla toda a feira — leilões, máquinas, insumos, grandes contratos. A fatia da agricultura familiar não é divulgada, mas a presença recorrente de produtores como Ayzzar indica retorno positivo ano a ano.
O desafio estrutural permanece: como transformar participação em feira em canais permanentes de venda? O pavilhão prova que produto e demanda existem. Falta infraestrutura de cold chain, certificação sanitária em escala e acesso a marketplaces regionais.
O que observar nos próximos ciclos
A Expoferr 2026 termina sábado, mas os contatos fechados no pavilhão devem reverberar em rodadas de negócios pós-evento. Investidores e compradores institucionais (mercado escolar, redes de varejo, exportadoras de bioativos) costumam mapear fornecedores durante a feira.
Para quem acompanha a economia da Amazônia legal, o sinal é claro: a agricultura familiar roraimense deixou de ser “atividade de subsistência” para entrar no radar de cadeias de valor organizadas. O próximo passo — e a grande oportunidade — está em quem conseguir estruturar a logística e a certificação para tirar esses produtos do parque de exposições e colocá-los nas gôndolas o ano inteiro.
