Economia

Crise do Ueno freia corrida ao Paraguai: empresários pisam no freio

Empresários brasileiros hesitam em investir no Paraguai após intervenção no Ueno Bank
Crise bancária no Paraguai freia onda de investimentos brasileiros pós-eleição de Lula

Uma onda de interesse por abrir negócios no Paraguai explodiu logo após a eleição de Lula, em 25 de outubro. Menos de duas semanas depois, a intervenção no Ueno Bank jogou um balde de água fria nos planos. O que acontece agora com quem já estava de malas prontas?

O antes e o depois: uma semana mudou tudo

Nos sete dias seguintes ao pleito brasileiro, a Câmara de Comércio Brasil-Paraguai viu a agenda de consultores lotar. Empresários buscavam orientação jurídica e contábil para cruzar a fronteira. O movimento era tão intenso que faltaram horários para atender a todos.

Na terça-feira, 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai colocou o Ueno Bank em regime de resolução. Fraudes ligadas ao Grupo Vázquez, controlador da instituição, forçaram a suspensão das operações e o início da transferência de depósitos. O sinal verde virou luz amarela quase da noite para o dia.

Segundo Jeancarlos Araldi, vice-presidente financeiro da Câmara, a reação foi imediata: “Muitos empresários já estão meio receosos de ir para lá”.

Quem realmente perde com o bloqueio do Ueno

A Câmara recebeu consultas de brasileiros com dinheiro retido no banco. Mas Araldi esclarece: entre os associados, a maioria dos afetados são pessoas físicas, não empresas. O Ueno era popular na fronteira para contas de menor valor e recebimento de salários.

“É muito difícil uma empresa ter uma conta nele”, resume o executivo. A entidade montou força-tarefa com economistas e advogados para orientar quem tem recursos presos. Algumas companhias já conseguiram resgatar valores em outras instituições paraguaias, embora não haja balanço consolidado do total.

Os números que explicam a atração pelo país vizinho

Luiz Fernando Nóbrega, presidente do Instituto Paulista de Contabilidade, levou uma comitiva ao Paraguai dias antes da crise. O objetivo: conhecer o ambiente de negócios. O veredito dos visitantes era claro — até o escândalo estourar.

Veja o que pesava na decisão:

  • Lei de Maquila: isenção de tributos para indústrias que produzem no Paraguai e exportam;
  • Incentivo a máquinas: benefícios na importação de equipamentos produtivos;
  • Custo menor: a Lupo relatou economia de pelo menos 28% na fabricação;
  • Proximidade logística: fronteira seca com o Brasil encurta cadeias de suprimento.

Nóbrega admite que “muitas pessoas pisaram no freio”, mas avalia que o impacto direto em empresas já instaladas tende a ser limitado. O risco maior está em fornecedores locais com caixa travado no Ueno — o que pode atrasar entregas.

Grandes nomes não recuam: Lupo e Havan mantêm planos

A fabricante de meias Lupo inaugurou em junho de 2025 sua primeira fábrica no exterior, em Ciudad del Este. Investimento de R$ 30 milhões, capacidade para 20 milhões de pares ao ano. A empresa confirma: operações seguem normais, sem relação bancária com o Ueno.

Do lado do varejo, Luciano Hang, dono da Havan, diz que o episódio não alterou a estratégia. Em nota, classificou a cobertura da imprensa como “ideologicamente enviesada” e apontou que o pedido de renúncia do presidente Santiago Peña prova que “as instituições estão funcionando corretamente”. Hang segue em busca de terreno para a primeira megaloja da rede no país.

O que observar nos próximos meses

Três variáveis vão ditar o ritmo da retomada: a velocidade da liquidação do Ueno e devolução dos depósitos; eventuais mudanças regulatórias do Banco Central paraguaio para evitar novos casos; e a estabilidade política após o desgaste do governo Peña.

Enquanto isso, a equação de fundo não mudou: incentivos tributários agressivos, mão de obra mais barata e acesso ao Mercosul mantêm o Paraguai no radar. A janela não fechou — apenas ganhou uma trava temporária. Quem tem apetite de risco e horizonte de médio prazo deve monitorar a resolução dos depósitos e a resposta do sistema financeiro local. O próximo trimestre dirá se o freio foi apenas uma pausa ou uma mudança de rota.