O maior banco digital do Paraguai fechou as portas em novembro, deixando 3 milhões de clientes — quase metade da população — sem acesso a contas, salários e aposentadorias. A velocidade da queda expõe uma rachadura que indicadores de crescimento não conseguem disfarçar.
O Ueno não era apenas um banco. Ele pagava benefícios previdenciários, gerenciava recursos de estatais e se tornara a espinha dorsal da inclusão financeira em um país onde 60% dos trabalhadores ainda vivem na informalidade. Seu colapso não é um acidente isolado: é o sintoma de um modelo que cresce, mas não se desenvolve.
O paradoxo dos números bonitos
No papel, o Paraguai brilha. O PIB avançou 6,6% em 2025 e o Banco Mundial projeta 4,7% para 2026 e 4,1% para 2027. A população é jovem, o desemprego oficial está em 4,1% e o acordo Mercosul–União Europeia abre as portas de um dos maiores blocos comerciais do mundo.
Por trás dessa vitrine, porém, a estrutura range. A economia continua concentrada em soja, energia de Itaipu e reexportação de mercadorias para o Brasil. A indústria mal aparece. A infraestrutura é precária. E o Estado, amarrado a uma carga tributária máxima de 10% (o famoso “triple 10”) e evasão fiscal endêmica, não tem caixa para financiar políticas de longo prazo.
Informalidade: o motor invisível
O desemprego baixo esconde uma realidade dura: 60,1% dos ocupados em 2025 estavam na informalidade. Entre jovens de 15 a 19 anos, o índice salta para 89,4%. São milhões de pessoas sem proteção trabalhista, sem previdência, sem crédito formal — justamente o público que o Ueno prometia atender.
Quando o banco cresceu oferecendo conta digital sem tarifas e crédito fácil, preencheu um vazio deixado pelo sistema tradicional e pelo próprio Estado. A expansão foi vertiginosa. Mas o lastro era frágil.
O que a fraude expôs
Investigações do Ministério Público apontam que a instituição simulou a venda de uma carteira de US$ 74 milhões usando dinheiro do próprio banco. Dois executivos foram presos. Jogadores da seleção nacional, que tinham salários depositados lá, cobram justiça publicamente.
- 3 milhões de clientes afetados em um país de 7,4 milhões de habitantes
- US$ 74 milhões em operação simulada sob investigação
- 2 executivos presos preventivamente
- Pagamento de aposentadorias e folha de estatais travados
O escândalo não é apenas financeiro. Ele revela como a modernização de um setor — o bancário — pode avançar sem que as instituições de controle, regulação e justiça acompanhem o mesmo ritmo.
Raízes políticas do vazio institucional
A transição democrática de 1989 não rompeu com as estruturas da ditadura de Alfredo Stroessner. O Partido Colorado mantém hegemonia há décadas, o que concentra poder, enfraquece a burocracia profissional e limita a capacidade do Estado de planejar e executar políticas públicas consistentes.
Essa herança pesa também na inserção internacional. O Paraguai entrou no Mercosul conduzido por Brasil e Argentina, sem formular sua própria estratégia. Hoje, reivindica tratamentos especiais nos acordos — mas sem infraestrutura e diversificação produtiva, mal consegue usar as preferências tarifárias que já tem, como o SGP+ da União Europeia.
Comércio preso no básico
A soja, principal exportação ao bloco em 2026, vai para a Argentina, onde é processada e segue para a China — país que Assunção não reconhece diplomaticamente, por manter laços com Taiwan. A eletricidade de Itaipu vendida ao Brasil e a reexportação de importados completam a pauta. Pouco valor agregado, muita dependência.
O acordo Mercosul–UE pode mudar esse jogo. Mas só se o país tiver capacidade técnica para atender exigências sanitárias e ambientais europeias — algo que, até aqui, tem faltado.
O que observar daqui para frente
A resolução da crise do Ueno Bank será o primeiro teste real da capacidade do sistema financeiro paraguaio de proteger depositantes e punir responsáveis sem contaminar a confiança no setor. Acompanhe:
- O cronograma de devolução de recursos aos 3 milhões de clientes
- Eventuais mudanças na regulação do Banco Central do Paraguai para fintechs e bancos digitais
- A execução orçamentária do governo para cobrir o rombo deixado na previdência e nas estatais
- Indicadores de inadimplência e crédito nos próximos trimestres — termômetro do contágio real
O crescimento continuará a aparecer nos relatórios do Banco Mundial. Mas desenvolvimento — esse exige instituições que funcionem, Estado com capacidade de investimento e uma economia que gere empregos formais e valor agregado. O colapso do Ueno prova que, sem isso, a modernização é apenas fachada.
