Em setembro de 2026, da tribuna da ONU, Luiz Inácio Lula da Silva alertou: a democracia está em xeque. Um mês depois, eleito para o terceiro mandato, prometeu “mudar o jeito de governar” e fazer o povo participar das decisões. O que une os dois discursos é uma aposta na Constituição de 1988 como bússola — mas a prova real veio nos bastidores, semanas depois.
O presidente disse textualmente: “Quando o governante não sabe o que perguntar ao seu povo, o seu povo saberá ensinar o que ele tem que fazer.” A frase soa como compromisso de escuta ativa. Na prática, porém, as primeiras nomeações para tribunais superiores sinalizam outro roteiro.
O que a Constituição exige — e o que está em jogo
Há dois níveis de normatividade no texto de 1988. O primeiro desenha instituições, define competências e impõe limites: atos de autoridades podem ser constitucionais ou inconstitucionais. O segundo é mais ambicioso: aponta valores e resultados coletivos a serem perseguidos — sociedade livre, plural, antioligárquica, antiautoritária, voltada ao bem-estar das gerações futuras.
Fidelidade a esse projeto não se mede apenas pela ausência de violações formais. Exige escolhas ativas que empurrem o Estado na direção prometida. É aqui que o discurso de vitória colide com a realidade das indicações.
Pressões de bastidor e o “vorcariado” institucional
Reportagens revelaram que um bloco no Supremo Tribunal Federal (STF), articulado com o senador Davi Alcolumbre (União-AP), pressiona por nomes descritos como “medíocres e invertebrados” para vagas nos tribunais superiores. A alegação: tribunais já autodestruídos pela corrupção institucional precisariam de perfis de baixa resistência.
O termo “vorcariado” — fusão de “voraz” e “proletariado” — passou a designar a aliança entre parcelas do Parlamento e da magistratura que capturam nomeações em benefício próprio. Não é novidade: o fisiologismo de ocasião terceiriza o futuro e trai a base que elegeu o governo.
Dados duros: o que mudou (e o que não mudou) em 2026
- Setembro/2026: Discurso na ONU — defesa da soberania, estado de direito, preservação ambiental.
- Outubro/2026: Vitória no segundo turno; discurso na Paulista promete “mandato da escuta”.
- Novembro/2026: Vazam negociações para vagas no STJ, TST e tribunais regionais.
- Histórico: Apoiadores cobram há anos mais diversidade, impessoalidade e critérios técnicos nas nomeações — sem atendimento.
A distância entre a retórica da participação popular e a prática da acomodação de interesses organizados não é apenas simbólica. Ela define se o terceiro mandato será de reconstrução institucional ou de gestão do status quo.
Por que isso afeta o ambiente de negócios e investimentos
Instituições judiciais fortes e independentes reduzem incerteza contratual, protegem direitos de propriedade e dão previsibilidade a decisões regulatórias. Quando nomeações priorizam lealdade política sobre competência técnica, o custo de capital sobe — e o risco Brasil, que vinha em trajetória de queda, pode reverter.
O mercado já precifica parte do ruído político. O que não está no preço é a hipótese de degradação acelerada do Judiciário superior nos próximos dois anos, justamente quando o país precisa de segurança jurídica para atrair capital de longo prazo em infraestrutura, energia e tecnologia.
O que observar daqui para frente
Três indicadores dirão se a promessa de “ouvir o povo” sobreviveu ao primeiro teste real:
- Perfil dos indicados: Currículo acadêmico, reputação técnica, ausência de vínculos partidários recentes.
- Tramitação no Senado: Velocidade das sabatinas, profundidade dos questionamentos, votações nominais.
- Reação da sociedade organizada: Manifestos de entidades de classe, ordens profissionais, centros de pesquisa jurídica.
A Constituição de 1988 não é um “livrinho” — é um contrato de futuro. O terceiro mandato será julgado não pelo que Lula disse na ONU ou na Paulista, mas por quem ele escolher para guardar esse contrato nos tribunais. O relógio começou a correr em novembro de 2026.
