O senador Eduardo Braga (MDB-AM) foi confirmado como relator do Orçamento de 2027, mas o verdadeiro desafio não é o nome — é o calendário apertado que ameaça repetir o caos de 2025. O governo projeta superávit de R$ 18,6 bilhões, mas a conta não fecha sem ajustes polêmicos. O que está em jogo nas próximas semanas?
O nome por trás da peça orçamentária
A escolha foi anunciada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), nesta terça-feira (3). Braga, líder do MDB, acumulará a relatoria da PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual) na CMO (Comissão Mista de Orçamento) com a de um projeto estratégico na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos): a resolução da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços).
Na prática, ele concentra poder de caneta sobre duas engrenagens centrais da economia: o gasto público do próximo ano e a regulamentação da nova tributação sobre consumo. A decisão sinaliza prestígio do MDB na articulação de Alcolumbre.
Superávit na mira e as contas que não fecham
A proposta original enviada pelo Planalto em agosto prevê resultado positivo de R$ 18,6 bilhões. O número, porém, já nasce pressionado. Duas promessas pós-eleição exigem espaço fiscal imediato:
- Programa de compra de dívidas de famílias endividadas;
- Reajuste acima da inflação no Bolsa Família.
Sem corte em outras áreas ou receitas extraordinárias, a meta de superávit vira letra morta. O relator terá de costurar uma solução que agrade base governista e oposição sem estourar o teto de gastos.
O fantasma de 2025 e o prazo de dezembro
O prazo final é inegociável: 22 de dezembro. Até lá, PLOA e LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) precisam passar pela CMO e pelos plenários da Câmara e do Senado. A LDO, inclusive, ainda não tem relator definido — a tendência é que caia nas mãos de um senador, já que em 2025 coube a um deputado.
Mas o histórico recente assusta. Em 2025, o governo começou o ano sem orçamento aprovado. A paralisia decorreu de meses de briga pelo pagamento de emendas parlamentares. A solução emergencial foi votar apenas a LDO, limitando gastos a 1/12 do previsto mensalmente. A LOA só saiu no final de março.
A corrida contra o tempo já começou
Nesta terça, líderes da CMO se reúnem para definir o calendário de tramitação. Cada dia de atraso aumenta o risco de “orçamento provisório” nos primeiros meses de 2027, travando investimentos e contratações. Braga conhece o roteiro: foi relator da LDO em 2023 e sabe onde estão as armadilhas regimentais.
Mas o efeito mais relevante aparece na articulação política. A dualidade de relatorias (Orçamento + CBS) transforma o senador em peça-chave para o governo aprovar a regulamentação da reforma tributária ainda este ano. Se ele travar, as duas pautas emperram juntas.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o desfecho: a velocidade da CMO nas próximas duas semanas, a disposição do Planalto em negociar emendas para garantir votos e a definição do relator da LDO. Se o calendário derrapar, o cenário de execução orçamentária por doze avos volta à mesa — e o mercado precifica incerteza desde já. Acompanhe a tramitação da CBS na CAE; ela serve de termômetro para a habilidade de Braga em entregar o Orçamento no prazo.
