Um artigo do economista André Lara Resende expôs uma fratura profunda no entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre os rumos da política econômica do quarto mandato. A proposta — que prevê cortar a Selic dos atuais 13,75% para cerca de 7,5% em doze meses — ganhou peso político depois que a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) a classificou como “fundamental” para enfrentar o que chamou de “ofensiva terrorista sobre a política fiscal”.
O episódio amplificou o ruído fiscal justamente quando investidores cobram sinais claros sobre o compromisso do Planalto com o equilíbrio das contas públicas. A dúvida que fica: até onde vai a influência da ala que rejeita ajuste fiscal e quem vai comandar a Fazenda a partir de 2027?
A proposta que mexeu com o tabuleiro
Publicado no fim de setembro, o texto de Lara Resende argumenta que o alto endividamento brasileiro decorre dos juros elevados, não do gasto primário. A solução defendida é a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), órgão que definiria metas conjuntas para as duas políticas.
Na prática, a regra manteria a taxa básica em uma faixa entre a meta de inflação e o crescimento nominal potencial da economia. O economista estima que isso permitiria uma Selic em torno de 7,5% ao ano — quase a metade do patamar atual — no prazo de um ano.
Outro ponto sensível: o uso de reservas cambiais para conter uma depreciação rápida do real, o que diverge da ortodoxia vigente no Banco Central.
Gleisi entra em cena e sinaliza ministério
Derrotada na disputa ao Senado pelo Paraná, Gleisi Hoffmann é considerada nome certo para assumir um ministério no governo Lula 4. Seu apoio público ao artigo não foi casual. Em postagem no X (antigo Twitter), a ex-presidente do PT endossou a tese de que o debate fiscal está sendo sequestrado por uma narrativa de “terrorismo”.
O movimento reforça a leitura de que a ala petista mais à esquerda ganhará espaço na formulação econômica. Procurados, nem Lara Resende nem a assessoria de Lula comentaram a suposta reunião entre o economista e o presidente — encontro negado pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan.
Dois polos, uma mesma insatisfação com os juros
O racha não é sobre o diagnóstico — ambos os lados concordam que a Selic alta penaliza a dívida pública. A divergência está na receita:
- Ala petista (Gleisi, Lara Resende): culpa os juros pelo endividamento e rejeita ajuste fiscal que possa provocar “retrocessos sociais”; defende mudança de regime via CFMN.
- Equipe econômica atual (Durigan, Bruno Moretti): também critica os juros, mas prega ajuste fiscal gradual para gerar superávits primários e estabilizar a dívida sem cortes em políticas sociais.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Durigan afirmou que “não há nenhuma proposta de tabelamento dos juros na mesa de Lula”. O presidente do PT, Edinho Silva, foi na mesma linha: apenas o ministro da Fazenda fala em nome do governo sobre política econômica.
O vácuo na Fazenda alimenta a especulação
Enquanto Lula não anuncia quem comandará o Ministério da Fazenda a partir de 2027, o ruído persiste. O governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), desponta como favorito, mas, segundo apuração do UOL, não houve convite formal até o momento.
Integrantes da atual equipe econômica ouvidos sob reserva dizem que episódios como o de Lara Resende só cessarão com a definição do titular da pasta. O presidente, no entanto, não demonstra pressa.
Vale lembrar: logo após o segundo turno, Lula autorizou Durigan e Moretti a preparar um “cardápio de medidas” para conter o crescimento das despesas. A fonte consultada avalia que não haverá “cavalo de pau” na condução econômica — mas, sem sinal claro, o mercado segue precificando incerteza.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo do ruído fiscal nas próximas semanas: a oficialização do nome para a Fazenda, a divulgação do pacote de controle de despesas em elaboração pela equipe atual e a reação do Banco Central à pressão política por juros mais baixos. Quem acompanha o cenário macro deve monitorar especialmente a curva de juros futuros — ela já embute parte dessa disputa.
