Economia

Economia dos EUA: o paradoxo que explica o voto de protesto…

Eleitor americano abastece carro em posto de gasolina com preços altos refletindo inflação e insatisfação econômica
O custo da gasolina simboliza o desconforto do eleitor com a economia trotz dos indicadores positivos.

Faltam dias para as urnas definirem o controle do Congresso, mas o eleitor americano já decidiu: a economia está ruim. A inflação, não o desemprego, dita o humor nas ruas — e a conta chega no posto de gasolina, no supermercado e no aluguel.

Os números oficiais, porém, contam outra história. Como conciliar pessimismo recorde com indicadores que, no papel, beiram o full employment?

O abismo entre o PIB e o bolso

A economia cresceu 3,4% no terceiro trimestre — o melhor ritmo do ano. O desemprego estaciona em 4,2% há cinco anos, a faixa mais longa da história. Bolsa em máximas históricas, investimento em IA disparando 12,7% ao ano. No papel, tudo bem.

No caixa da família média, a realidade é outra. Salários e preços subiram ambos 5,5% desde janeiro de 2025. Resultado: poder de compra estagnado. Quem ganha por hora não avançou um centímetro real em quase dois anos.

De onde vem o fogo nos preços

Dois choques simultâneos explicam a aceleração recente:

  • Guerra Irã-Israel: oito meses de conflito elevaram o barril e contaminaram cadeias logísticas globais.
  • Boom de IA: data centers devoram energia e semicondutores, pressionando custos industriais e serviços de nuvem.

O Fed reagiu. Juros básicos subiram em setembro e o mercado precifica novo aperto em dezembro. Kevin Warsh, presidente do banco central, chama de “remédio monetário” — a promessa de domar a inflação sem quebrar o emprego.

O mercado de trabalho que ninguém vê

Demissões em massa? Não existem. Pedidos de seguro-desemprego beiram mínima de 57 anos. Mas contratações também esfriaram. Recém-formados penam para achar vaga. O diferencial “empregos fáceis vs. difíceis” do Conference Board melhorou em outubro, sinal de que a percepção começa a virar — devagar.

Enquanto isso, o consumo de alta renda segura o PIB. Quem tem ações viu o patrimônio engordar; quem aluga e financia carro sentiu o aperto dos juros longos. Hipoteca de 30 anos acima de 7% travou o sonho da casa própria para milhões.

Duas pesquisas, um mesmo recado

Índice de confiança da Universidade de Michigan: mínima histórica. Conference Board: leve alta em outubro. A divergência metodológica esconde um consenso: o consumidor gasta, mas reclama. Scott Bessent, secretário do Tesouro, resume: “pesquisas pessimistas, comportamento sólido”.

O voto de terça-feira será, na prática, um referendo sobre essa dissonância. Tarifas, guerra, juros, IA — cada eleitor carrega sua conta.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis ditarão se o humor melhora ou azeda antes de 2025: a trajetória do petróleo pós-conflito no Oriente Médio, a velocidade de queda da inflação de serviços (ainda teimosa acima de 4%) e a reação do mercado de trabalho ao aperto monetário de dezembro. Se o desemprego furar 4,5%, o pessimismo deixa de ser sensação e vira dado duro.