A Aliança para a Inovação Automotiva — entidade que reúne General Motors, Toyota, Volkswagen e quase todas as demais grandes montadoras — entregou ao Congresso dos EUA um pedido direto: aprovar a proibição permanente de veículos chineses ainda nesta sessão legislativa. O movimento expõe um racha raro entre a indústria e a Casa Branca.
O timing não é acaso. Parlamentares retornam na próxima semana para a sessão “lame duck” pós-eleições de meio de mandato. A janela para votar o projeto bipartidário fecha em dezembro.
O ultimato das gigantes a Washington
John Bozzella, CEO da entidade, foi taxativo: o mercado americano não pode repetir o que ocorreu na Europa. Ele citou riscos de vigilância via software embarcado e a ameaça a investimentos de gerações em fábricas locais. A entidade argumenta que a concorrência desleal chinesa exige resposta legislativa dura, não apenas tarifas.
O projeto já passou por comissão no Senado em julho e conta com mais de 100 coautores na Câmara. Assessores legislativos, porém, alertam: se os democratas mantiverem o controle, o calendário apertado pode impedir a votação final.
O precedente europeu que assusta Detroit
O dado mais contundente da carta de Bozzella vem do outro lado do Atlântico. Nos primeiros oito meses do ano passado, a União Europeia importou mais de 1,1 milhão de veículos da China — volume superior a todo o ano anterior. A velocidade da penetração chinesa no mercado europeu serve de alerta para o que pode acontecer nos EUA sem barreiras legais robustas.
- Tarifa atual sobre EVs chineses: superior a 100%
- Regulamentação Biden (início de 2025): veto efetivo a carros conectados chineses por risco de dados
- Projeto no Congresso: proibição permanente e abrangente
O entrave político e a incógnita Trump
Mas o efeito mais relevante aparece na política partidária. A declaração de Donald Trump à Fox News em setembro — de que aceitaria fábricas chinesas em solo americano — gerou alarme imediato no setor. Montadoras temem que uma eventual volta de Trump ao poder desmonte a arquitetura de defesa comercial recém-construída.
Enquanto isso, Pequim classifica a ofensiva como “repressão irracional” e cobra respeito às leis de mercado. O Ministério das Relações Exteriores da China já sinalizou retaliações caso a lei avance.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem o desfecho nas próximas semanas: a velocidade do Senado na sessão pós-eleição, a disposição da Câmara em alinhar o texto e, principalmente, a posição da Casa Branca sobre pressionar pela votação antes da troca de governo. Para o empresário do setor, o sinal claro é: a guerra comercial automotiva deixou de ser tarifária para se tornar existencial. Quem depende de cadeias de fornecimento ou planeja expansão na América do Norte deve mapear cenários com e sem o veto legal em vigor.
