A arroba do boi gordo encostou em R$ 400 em São Paulo, referência para o maior exportador global de carne bovina. A alta de 20% no ano — um terço concentrado apenas em outubro — reflete uma tempestade perfeita: dólar valorizado, China voltando às compras e oferta restrita de animais. O consumidor final já sente o impacto no açougue.
O gatilho cambial que mudou o jogo
Na semana passada, o dólar subiu 9,15% após o segundo turno das eleições. Para a indústria frigorífica, exportar ficou imediatamente mais rentável. “O câmbio aumenta a competitividade brasileira e puxa o interesse em faturar em moeda forte”, resume Lygia Pimentel, CEO da Agrifatto. Com as vendas externas mais atrativas, o boi acompanhou o movimento.
China retorna ao mercado com cota bilionária
O gigante asiático esgotou sua cota de 2026 (tarifa de 12%) ainda no primeiro semestre. Para 2027, o volume sobe para 1,128 milhão de toneladas — acima disso, a taxa salta para 55%. A expectativa é de retomada forte entre novembro e dezembro para garantir o preenchimento da nova cota.
- Cota 2027: 1,128 milhão de toneladas a 12% de tarifa
- Tarifa extra-cota: 55%
- Janela de compras: novembro a dezembro
Negócios a R$ 400 já são realidade
Pesquisas da Datagro mostram frigoríficos exportadores fechando a R$ 400 a arroba. Surpreendentemente, empresas focadas no mercado interno também operam nesse patamar, impulsionadas pela demanda de fim de ano. João Figueiredo, da consultoria, alerta: para o consumidor doméstico, R$ 400 funciona como teto — acima disso, o consumo recua.
Oferta travada pelo ciclo pecuário
Não é só demanda. O ciclo de produção mantém a oferta de animais para abate em patamares baixos. Thiago Bernardino, do Cepea/Esalq, não vê espaço para recuo até o primeiro semestre de 2025: “Equilíbrio muito apertado entre oferta e demanda impede queda de preço”.
Margens espremidas em toda a cadeia
O spread entre compra do boi e venda da carne atingiu o menor nível desde 2023. Terminadores pagam caro pelo bezerro, frigoríficos compram boi caro e repassam ao varejo, que repassa ao consumidor. Pimentel acredita que as exportações a dólar alto compensarão as margens apertadas no curto prazo — especialmente com EUA e China comprando mais.
O que observar nos próximos meses
Três variáveis ditam o rumo: volume efetivo de compras chinesas em novembro/dezembro, trajetória do câmbio e resposta do consumo doméstico às festas de fim de ano. Se a China honrar a cota de 2027 e o dólar se mantiver acima de R$ 5,50, o patamar de R$ 400 deixa de ser teto e vira novo piso. Para o empresário do setor, a equação é clara: estoque caro hoje, mas janela de exportação favorável à frente.
