Economia

O segredo que segura os juros no Brasil: e se os estrangeiros forem embora?

Gráfico mostra fluxo de capital estrangeiro sustentando títulos públicos brasileiros NTN-B e LTN
Estrangeiros detêm mais de R$ 200 bi em títulos indexados à Selic, expondo fragilidade estrutural do mercado.

Investidores não residentes estão sustentando sozinhos o mercado de juros brasileiro. Se decidirem sair, a capacidade local de absorver esse risco é perigosamente limitada.

O cenário expõe uma fragilidade estrutural que poucos comentam: a dependência de capital externo para manter a liquidez dos títulos públicos indexados à Selic.

O pilar invisível do mercado de renda fixa

Dados recentes mostram que estrangeiros detêm posição comprada líquida superior a R$ 200 bilhões em NTN-Bs e LTNs. Esse volume representa mais de 30% do estoque total em circulação.

Gestores locais, por outro lado, reduziram exposição nos últimos seis meses. Fundos de pensão e bancos migraram para ativos indexados ao IPCA ou prefixados de prazo mais curto.

Por que os locais não compram mais?

  • Curva de juros real acima de 6% ao ano atrai, mas o risco fiscal afasta
  • Regra de transição do arcabouço cria incerteza sobre trajetória da dívida
  • Janela de oportunidade no exterior paga prêmio similar com menos volatilidade

O resultado é um desequilíbrio: o comprador de última instância não tem lastro para assumir o volume que os estrangeiros carregam hoje.

O gatilho que ninguém quer testar

Uma alta de 50 pontos-base nos juros americanos ou deterioração abrupta do câmbio acima de R$ 5,50 poderia disparar realização de lucros lá fora. Simulações do Tesouro indicam que, em cenário de estresse, a saída de não residentes superaria R$ 50 bilhões em três semanas.

Nesse cenário, a curva longa abriria 80 a 100 pontos-base em dias. O Banco Central teria de intervir com leilões de linha ou recompra de títulos — ferramentas que não são usadas desde 2020.

O que observar daqui pra frente

O calendário de novembro traz três eventos decisivos: decisão do Copom dia 5, leilão de NTN-B 2035 dia 12 e divulgação do Relatório de Inflação dia 26. Cada um pode alterar a disposição do capital externo.

Enquanto o fluxo não reverte, o mercado opera com uma folga artificial. A pergunta que fica não é se a estrutura será testada, mas quando — e quem vai segurar a ponta quando o teste chegar.