Uma proposta para limitar a taxa Selic por decreto pode desembarcar na mesa do presidente Lula nos próximos dias, e a simples menção ao tema já provocou um abalo sísmico nos ativos brasileiros. O autor é André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, e a ideia desafia a ortodoxia que rege o Banco Central há décadas.
O encontro entre o economista e o petista ainda não tem data confirmada pelo Planalto, mas a repercussão no noticiário de fim de semana foi suficiente para azedar o humor de gestores e analistas. A dúvida que fica: até onde o novo governo está disposto a ir para forçar a queda dos juros?
A mecânica por trás do ‘tabelamento’
No centro da tese de Lara Resende está a inversão de causalidade: para ele, o gasto primário não é o vilão da dívida pública — são os juros. O argumento sustenta que a Selic a 13,75% ao ano gera um custo de carregamento da dívida bruta (hoje em 82,5% do PIB) que cresce mais rápido que a economia real.
Em números: a dívida de R$ 10,9 trilhões consome cerca de R$ 1,4 trilhão ao ano só em encargos, o equivalente a 10,5% do PIB. Enquanto o PIB nominal avança ~7%, a dívida nominal explode a ~12,7%. O resultado é uma trajetória insustentável que, segundo o economista, só se resolve atacando a taxa de juros.
O que o plano prevê na prática
A solução técnica passa pela criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, fundindo as duas políticas sob metas de quatro a cinco anos. O Banco Central se comprometeria a manter a Selic numa banda entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial do PIB (estimado em 5,5%).
- Meta inicial: reduzir a Selic gradativamente para 7,5% em 12 meses.
- Colchão de segurança: 2 pontos percentuais acima do PIB potencial.
- Escudo cambial: uso das reservas internacionais (US$ 350 bi) para conter depreciação do real.
O economista admite que o choque inicial pode gerar repique inflacionário via câmbio, mas aposta que as reservas dão fôlego para a transição.
Por que a Faria Lima chama de ‘terra arrasada’
Gestores de grandes bancos ouvidos reservadamente classificam o cenário como catastrófico — pior que a disparada do dólar e dos juros futuros vista após o segundo turno. A leitura é unânime: o diagnóstico de Lara Resende até faz sentido, mas a prescrição ignora a raiz do problema.
Para o mercado, o juro alto é sintoma da desconfiança fiscal, não a causa. Baixar a Selic por canetada, sem âncora crível de consolidação das contas, configuraria dominância fiscal: o Tesouro ditando a política monetária. O efeito imediato seria a desancoragem total das expectativas de inflação e câmbio.
O fantasma de 2012 e a autonomia do BC
Sérgio Vale, da MB Associados, lembra que a tentativa de forçar juros baixos em 2012 levou a inflação ao teto da meta (6,5%) e exigiu um ciclo de alta brutal depois. “Fazer isso agora, com risco-país elevado, juros americanos altos e impulso fiscal expansionista, é receita para desastre cambial”, resume.
Além disso, a criação do Conselho extinguiria na prática a autonomia operacional do Banco Central, conquistada em 2021. A Selic passaria a servir ao custo da dívida, não ao controle de preços — o que, na visão de Marcos Mendes (Insper), equivale a “supor que temos um abridor de latas” para resolver o ajuste fiscal que ninguém consegue aprovar.
O que observar nas próximas semanas
O Planalto nega agenda formal, mas admite que Lula ouvirá “diversas visões” sobre a política monetária. A nomeação da equipe econômica — cobrada por aliados para acalmar o câmbio — será o primeiro teste real: se o ministro da Fazenda vier alinhado à ortodoxia, a proposta de Lara Resende fica na gaveta. Se houver sinais de flexibilização da meta de inflação ou questionamento à autonomia do BC, o estresse nos ativos tende a se prolongar. O dólar, a curva de juros futuros e as expectativas do Focus serão os termômetros diários dessa disputa.
