Economia

Soja sem defesa: a conta de R$ 223 bi que o Brasil não quer pagar

Plantação de soja saudável contrastando com área afetada por pragas e doenças, representando perdas de R$ 223 bilhões
Estudo da UFV revela: sem controle fitossanitário, a soja brasileira perde 55% da produtividade, gerando prejuízo de R$ 223,5 bi por safra.

Um estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV) coloca um número assustador na mesa: sem controle de pragas, doenças e plantas daninhas, a produtividade da soja brasileira despencaria 55%. O impacto direto seria uma fatura de R$ 223,5 bilhões em perdas por safra — sem contar a pressão sobre a inflação e a conta do supermercado.

Mas a solução mais usada hoje, o defensivo químico, carrega um passivo ambiental e de saúde pública que o setor ainda não resolveu. O dilema é técnico, econômico e, cada vez mais, regulatório.

O tamanho do buraco na lavoura

A pesquisa simulou três cenários para as principais ameaças fitossanitárias — ferrugem-asiática, mosca-branca e nove espécies de daninhas. Os dados mostram onde o dinheiro some:

  • Controle ótimo (80% de proteção): 72 sacas por hectare.
  • Controle parcial (40%): 52 sacas — queda de 28%.
  • Sem controle: apenas 32 sacas — o tal tombo de 55%.

Para compensar essa ausência total de manejo, o Brasil precisaria plantar mais 33,5 milhões de hectares. Isso equivale a quase um estado de Goiás inteiro de nova área aberta — algo inviável do ponto de vista fundiário e ambiental.

O efeito cascata no bolso e na inflação

A conta não para na porteira da fazenda. A receita simulada de exportações cai de US$ 44,2 bilhões (com controle ideal) para US$ 26,6 bilhões sem proteção. São US$ 17,6 bilhões a menos entrando no país a cada safra.

A escassez empurraria o preço da soja para cima em até 49%. Segundo a pesquisadora Ana Carolyne Carvalho, da UFV, o choque chega à mesa do consumidor via óleo, farelo, ração animal e, por consequência, carnes, leite e ovos. O estudo estima alta de 0,26 ponto percentual no IPCA apenas por esse canal.

O Brasil campeão de uso por hectare

Dados do Ipea mostram que, entre 2003 e 2023, o consumo de agrotóxicos saltou 4,4 vezes: de 180 mil para 800 mil toneladas anuais. O resultado coloca o país no topo do ranking mundial de intensidade: 10,9 kg por hectare plantado. Para comparar, os EUA aplicam 2,85 kg/ha e a China, 1,9 kg/ha.

Soja, milho e cana-de-açúcar respondem juntos por 76% desse volume. O pesquisador Robson Barizon, da Embrapa, resume o risco: contaminação de solo e água, efeitos sobre polinizadores e biodiversidade, além de riscos agudos e crônicos à saúde humana dependendo da toxidade e exposição.

Transgênicos: a faca de dois gumes

Organismos geneticamente modificados (OGMs) são apresentados como parte da solução — plantas resistentes a pragas dispensam inseticidas. Mas há o outro lado: cultivares tolerantes a herbicidas permitem aplicações mais intensas para matar daninhas, o que acelera a seleção de plantas resistentes e mantém o ciclo químico rodando.

Barizon destaca que não há evidências robustas de risco extra à saúde no consumo de OGMs aprovados. O impacto ambiental, porém, está atrelado ao modelo de manejo associado à tecnologia.

Nova lei, mais registros, mais intoxicações

Desde a promulgação da Lei 14.875/2023, o ritmo de aprovação de novos produtos acelerou. Em 2024, foram 663 liberações contra 555 no ano anterior. No recorte 2005-2019, apenas 20% dos 3.151 registros eram de baixa toxicidade.

O coordenador de Sustentabilidade da Croplife, Pedro Duarte, defende o rigor do processo regulatório brasileiro. Ainda assim, dados do Ministério da Saúde compilados pela ONG Repórter Brasil mostram 73.391 casos de intoxicação por agrotóxicos entre 2015 e 2025 — sendo 9.729 apenas no último ano do período.

O que observar daqui para frente

O cenário aponta para três vetores de mudança. Primeiro, a pressão por bioinsumos e manejo integrado deve crescer, tanto por exigência de mercado externo quanto por sustentabilidade da própria lavoura. Segundo, o marco regulatório recém-alterado tende a manter o fluxo de novos químicos alto, o que exige fiscalização pós-registro efetiva. Terceiro, a expansão da fronteira agrícola sem ganho de produtividade por área reacende o debate sobre uso da terra e emissões. Para o tomador de decisão, a equação não é “químico ou biológico”, mas sim como combinar ferramentas para manter a receita de US$ 44 bilhões sem expandir a conta ambiental.