A taxa de desocupação fechou o terceiro trimestre em 5,2%, o patamar mais baixo para o período desde 2012. O número surpreende até analistas mais otimistas e acende um alerta: o mercado de trabalho está mais apertado do que parece.
São 5,6 milhões de pessoas sem emprego — 234 mil a menos que no trimestre anterior e 417 mil a menos que um ano atrás. Mas a queda do desemprego esconde dinâmicas que afetam diretamente quem contrata, quem busca vaga e quem negocia salário.
O recorde que ninguém esperava tão cedo
A população ocupada bateu 103,6 milhões, maior marca da série histórica do IBGE. No trimestre, entraram 581 mil pessoas no mercado; em doze meses, 1,2 milhão. O nível de ocupação — percentual de trabalhadores na população em idade ativa — chegou a 59%, também recorde.
Em números redondos:
- Ocupados: 103,6 milhões (+0,6% no trimestre, +1,2% no ano)
- Desocupados: 5,6 milhões (-4% no trimestre, -6,9% no ano)
- Nível de ocupação: 59% (recorde histórico)
O dado reforça um cenário de escassez de mão de obra em setores-chave. Para empresas, isso significa disputa por talentos e pressão de custos. Para profissionais, poder de barganha — mas nem todos sentem o efeito da mesma forma.
Informalidade resiste e freia ganhos de qualidade
A taxa de informalidade ficou em 37,5%, praticamente estável frente aos 37,4% do trimestre anterior. São 38,8 milhões de trabalhadores sem carteira assinada, CNPJ ou proteção previdenciária plena. O número até caiu frente a igual período de 2025 (37,8%), mas a estabilidade recente sugere que a formalização perdeu fôlego.
Isso tem consequência direta na renda. O rendimento real habitual médio ficou em R$ 3.790 — estável no trimestre, mas com alta de 3,6% em doze meses (R$ 131 a mais). A massa de rendimentos, porém, saltou 1,5% no trimestre e 4,7% no ano, atingindo R$ 387,5 bilhões, maior valor da série.
Ou seja: mais gente trabalhando e ganhando um pouco mais, mas a qualidade do vínculo não acompanhou o ritmo.
Por que o salário médio não dispara se faltam trabalhadores?
A resposta está na composição das vagas. Boa parte das ocupações criadas concentra-se em serviços, comércio e construção — setores com maior rotatividade e remuneração média mais baixa. Além disso, a informalidade atua como amortecedor: quando a economia aquece, muitos preferem manter a flexibilidade (mesmo precária) a trocar por vagas formais com salários iniciais modestos.
Outro fator: o reajuste do salário mínimo e acordos coletivos recentes ainda estão sendo incorporados aos contracheques. O efeito cheio deve aparecer nos próximos trimestres.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o rumo do mercado de trabalho nos próximos meses:
- Selic e crédito: juros altos freiam investimento e contratação formal, sobretudo na indústria e em serviços de alta qualificação.
- Reforma tributária e desoneração: mudanças na folha de pagamentos podem alterar o custo de formalizar vagas.
- Sazonalidade de fim de ano: comércio e serviços costumam abrir vagas temporárias no quarto trimestre — muitas informais —, o que pode mascarar a tendência estrutural.
Para quem empreende ou investe, o recado é claro: mão de obra barata e abundante ficou no passado. Planejar custos com gente exige agora cenários de salários crescendo acima da inflação e disputa por profissionais qualificados. Para quem trabalha, a janela de negociação está aberta — mas vale checar se a vaga oferece proteção real ou apenas ocupação.
