A oposição a data centers saiu dos EUA e desembarcou no Brasil com força: Ministério Público, moradores e assembleias legislativas já questionam megaprojetos. O setor prevê investimentos de R$ 92 bilhões até 2031, mas a velocidade da expansão assusta quem vive ao lado dos servidores.
Até pouco tempo, o país era coadjuvante — responde por 1% da capacidade global contra 58% dos americanos. Agora, entramos na rota do capital internacional e a resistência virou “sinal amarelo”, nas palavras de especialistas em relações governamentais.
Onde a resistência já bate à porta
Três casos emblemáticos mostram o tamanho do problema:
- Pecém (CE): MP Federal e Defensoria pedem paralisação de obra da Omnia (cliente TikTok) por falta de consulta a comunidade indígena e estudo de impacto.
- Belém (PA): MP Estadual questiona licenciamento de projeto da Elea Data Center.
- Campinas (SP): Inquérito do MP apura liberação antecipada de alvarás e riscos na ligação elétrica de empreendimento da Terranova.
Nas redes, políticos de esquerda amplificam críticas. Em assembleias legislativas, a consultoria Innova mapeou 20 projetos de lei sobre o tema só em 2024 — nove com viés restritivo. Em 2023, eram apenas quatro propostas, uma restritiva.
Energia, água e a conta que sobra para todos
O gargalo não é só ambiental. No primeiro leilão da nova política de acesso à transmissão (Pnast), três data centers em São Paulo levaram todos os 228 MW disponíveis. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta crescimento médio de 13,7% ao ano na demanda do setor até 2036, contra 1,8% do consumo total do país.
“Você precisa investir em infraestrutura de transmissão para garantir a conexão. Esse custo é rateado por todos os usuários”, alerta Daniel José Tavares de Souza, consultor da EPE. O desafio: dimensionar a rede sem criar estrutura ociosa que pese na conta de luz.
Hoje, data centers consomem 1,7% da eletricidade brasileira. A Brasscom estima que a fatia dobre para 3,6% até 2029. “O que é grande não é o consumo em si, mas a velocidade. É um ciclo de expansão mais rápido que a capacidade de planejamento do setor elétrico mundial”, resume Affonso Nina, presidente da entidade.
Brasil não é EUA — mas o efeito contágio é real
Nos EUA, 106 projetos foram bloqueados ou adiados no primeiro semestre de 2024. Lá, a matriz é fóssil e o resfriamento costuma ser a céu aberto, gastando água em escala. Aqui, 80% usam circuito fechado (a mesma água circula repetidamente) e o setor consome 0,003% do total hídrico nacional — legado da crise hídrica paulista de meados da década passada.
Para acessar o Redata (lei de incentivos federais recém-aprovada), projetos terão de provar eficiência hídrica ≤ 0,05 L/kWh e atender índice de eficiência energética por região. A isenção de impostos na importação de equipamentos já vale; a desoneração do ICMS estadual ainda depende de regulamentação federal, travada pela discussão sobre incluir gás natural como fonte “limpa”.
So رقمية e a aposta no processamento local
Outro argumento do setor: o Brasil “importa” processamento de dados, o que gera risco de soberania digital. O Redata exige que empresas beneficiadas destinem pelo menos 10% da capacidade ao mercado interno.
Empresas como Equinix e Scala já mudam a abordagem: fazem trabalho prévio nas comunidades, apresentam dados de consumo e negociam benfeitorias antes de anunciar projetos. “Isso sempre foi um fator e agora vai ser mais do que nunca”, diz Eduardo Shuto, diretor de estratégia Latam da Equinix.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo nos próximos trimestres: a regulamentação do ICMS nos estados, a capacidade do ONS e da EPE de endereçar o gargalo de transmissão sem repassar custos excessivos ao consumidor, e a judicialização de licenciamentos — se MP’s e Defensorias seguirem vencendo liminares, o “sinal amarelo” vira vermelho para parte do pipeline de US$ 8 bilhões previstos para 2024. Investidores e gestores de infraestrutura devem monitorar cada leilão de transmissão e cada nova ação civil pública: são eles que vão separar os projetos que saem do papel dos que ficam no papel.
