Mensagens obtidas pela Polícia Federal revelam que um intermediário da Paper Excellence combinou pagar US$ 7,5 milhões — cerca de R$ 40 milhões — por um parecer do Ministério Público Federal favorável à empresa na disputa bilionária pela Eldorado Celulose. O advogado Willer Tomaz, conhecido em Brasília pela proximidade com Flávio Bolsonaro, ficaria com R$ 10 milhões do montante. O parecer foi assinado no mesmo dia em que uma das empresas de Willer recebeu R$ 12,3 milhões.
O esquema nas mensagens interceptadas
A troca de mensagens, datada de abril de 2024, cita um combinado com alguém identificado apenas como “AC”. Para os investigadores, as iniciais correspondem a Antônio Carlos Simões Soares, então subprocurador-geral da República e autor do parecer.
Em 2 de abril, um contato chamado Marc Dhabi escreveu a Willer: “o cacique está informando que nos registros dele o combinado para liminar com o AC era US 7,5”. A mensagem detalha a divisão: R$ 10 milhões para Willer, mais US$ 500 mil para o “Japonês” e outros US$ 500 mil para “os outros dois”. Willer respondeu confirmando os valores: “7.5 + 0,5 + 0,5?”.
Nem o “cacique”, nem o “Japonês” nem Marc Dhabi foram identificados até o momento.
Dinheiro na conta no dia do parecer
O depósito de R$ 12,3 milhões caiu na conta da Difusora Comunicação, empresa de Willer. Ao enviar os dados bancários, o próprio advogado anotou que o valor líquido, após impostos, seria de R$ 10 milhões — exatamente a quantia que lhe caberia no acerto.
No mesmo dia, Soares assinou parecer contrário a uma liminar que beneficiava a J&F no STJ. A decisão provisória travava a transferência do controle da Eldorado para a Paper. Ao fim do expediente, Willer avisou Dhabi: “já está no site do STJ”.
Em março, o advogado já havia encaminhado outro parecer de Soares, também favorável à Paper, no dia em que o documento foi protocolado.
Tentativas de blindar o pagamento
Após o depósito, a conversa girou em torno de como justificar a entrada de recursos. Dhabi pediu nota fiscal e sugeriu descrever o serviço como “elaboração de campanha de mídia”. Willer contrapropôs emitir pela empresa de táxi aéreo do grupo, como “compra de horas de voo”.
Dhabi recusou: “meu escritório tem pouca gente, seria muito arriscado”. Insistiu que o pagamento “tem que ser via offshore” e que o dinheiro precisaria vir em dólar, pois “o banco está na China”.
Willer então propôs pagamento “de fora, via invoice”, garantindo que “a blindagem fica total”. Em julho de 2024, um contrato foi formalizado em nome da offshore Zunway Limited, assinado por Dhabi. Para a PF, a estrutura serviu para ocultar o vínculo entre Willer e a CA Investment, braço da Paper no Brasil.
Parecer não surtiu efeito prático
A ministra Nancy Andrighi, relatora no STJ, não revogou a liminar. Em outubro de 2024, decidiu parcialmente a favor da J&F, contra o parecer de Soares. A liminar só perdeu validade em maio de 2025, quando a J&F recomprou a fatia da Paper na Eldorado e as duas empresas encerraram os litígios.
O que observar daqui para frente
O inquérito segue sob sigilo no STF. A Procuradoria-Geral da República ainda não se manifestou sobre a conduta de Soares, que está aposentado. Willer Tomaz e a Paper Excellence não responderam aos questionamentos. A PF apura agora a identidade dos demais citados nas mensagens — “cacique”, “Japonês” e Marc Dhabi — e se há outros processos onde o mesmo padrão de atuação se repete.
Para investidores e empresários, o caso reforça a necessidade de due diligence rigorosa em operações que envolvam disputas judiciais de alto valor, especialmente quando há indícios de tentativa de influenciar órgãos de controle.
