Justiça

PF mira R$ 100 mi em fundo de previdência: o que está por trás da Operação Entressafras

Agentes da Polícia Federal em operação contra desvio de R$ 100 milhões em fundo de previdência
Polícia Federal cumpre mandados na Operação Entressafras que investiga rombo na São Roque Prev.

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (27) a Operação Entressafras para investigar desvios que podem superar R$ 100 milhões na São Roque Prev, entidade que gere a aposentadoria dos servidores municipais de São Roque, no interior paulista. O volume de recursos sob suspeita equivale a quase toda a aplicação feita em um único banco: o Banco Master, de Daniel Vorcaro, atualmente preso.

Nove mandados de busca e apreensão foram cumpridos simultaneamente em São Roque e no estado de Pernambuco. A apuração mira crimes que vão de gestão fraudulenta e peculato financeiro a lavagem de capitais e delitos contra a administração pública.

Como o dinheiro saiu do radar

Segundo a investigação, entre 2022 e 2024 a entidade movimentou cifras de nove dígitos sem pareceres técnicos nem fundamentação adequada. Mais de R$ 90 milhões — ou 90% do total suspeito — foram direcionados ao Banco Master. A concentração extrema em uma única instituição financeira, cujo controlador já responde a processos, acendeu o alerta dos investigadores.

A ausência de análises de risco e de comitês de investimento independentes é um dos pontos centrais do inquérito. Documentos preliminares indicam que decisões de alocação foram tomadas por um grupo restrito, sem o crivo de conselhos fiscais ou comitês de governança.

O elo com o Banco Master e a prisão de Vorcaro

Daniel Vorcaro, fundador e controlador do Banco Master, foi preso em operação distinta no primeiro semestre de 2026. A instituição vinha sendo alvo de apurações por suspeita de pirâmide financeira e uso de recursos de terceiros para cobrir buracos patrimoniais. A exposição da São Roque Prev a esse banco coloca em xeque a gestão fiduciária do fundo.

  • R$ 100 milhões em movimentações suspeitas (2022–2024)
  • R$ 90 milhões aplicados no Banco Master
  • 9 mandados de busca e apreensão em dois estados
  • 4 tipificações penais sob apuração simultânea

Impacto direto no bolso do servidor

O fundo atende cerca de 3,2 mil beneficiários entre ativos, aposentados e pensionistas. Embora a entidade afirme que os pagamentos estão em dia, a liquidez dos ativos restantes é incerta. Se os valores investidos no Banco Master forem declarados indisponíveis ou de difícil realização, a capacidade de honrar compromissos futuros pode ficar comprometida.

Especialistas em previdência municipal ouvidos sob reserva alertam que a legislação permite intervenção federal ou estadual quando há risco de insolvência. O Ministério da Previdência Social já foi notificado e deve emitir parecer técnico nas próximas semanas.

Por que a operação ganhou ramificação em Pernambuco

A extensão dos mandados para o Nordeste não é aleatória. Parte da estrutura operacional do Banco Master e de veículos de investimento ligados a Vorcaro possui endereço fiscal ou administrativo em Recife. A PF apura se houve intermediação de operadores financeiros sediados no estado para ocultar a destinação final dos recursos.

Essa capilaridade interestadual reforça a tese de organização criminosa estruturada, o que eleva as penas previstas e permite o uso de instrumentos como bloqueio de ativos no exterior e quebra de sigilo bancário ampliado.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem acompanhamento nos próximos 30 dias: o pedido de intervenção na São Roque Prev, o desenrolar da liquidação extrajudicial do Banco Master no STJ e a eventual delação de operadores financeiros presos em Pernambuco. Qualquer um desses movimentos pode redefinir o destino dos recursos e a responsabilidade dos gestores que assinaram as aplicações.

Para gestores de fundos de previdência municipais, o caso serve de alerta: concentração de carteira, ausência de governança independente e dependência de um único interlocutor financeiro são vetores de risco que a fiscalização passa a punir com rigor inédito.