Ciência

O ‘funcionário’ de asas que resolveu praga de pombos em hospital capixaba

Gavião Shiluba sobrevoando Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes para controle de pombos
O gavião Shiluba, de seis anos, patrulha o Hucam em Vitória para afastar pombos e proteger pacientes imunossuprimidos.

Um gavião de seis anos chamado Shiluba virou a nova estratégia do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam), em Vitória, para expulsar uma colônia de 60 pombos que ameaçava a segurança de pacientes imunossuprimidos. A ave sobrevoa o complexo hospitalar quinzenalmente, e os resultados surpreenderam até os biólogos responsáveis.

O método substituiu tentativas frustradas de telas, repelentes e campanhas educativas. Agora, a administração prepara um novo censo para decidir se reduz ainda mais a frequência das rondas.

Por que pombos em hospital viram caso de polícia sanitária

Não é só sujeira. As fezes secas viram poeira carregada de fungos, bactérias e parasitas que circulam pelos dutos de ventilação e ar-condicionado. Para quem já está com a imunidade baixa, a exposição pode ser letal.

Três doenças assombram a vigilância epidemiológica: criptococose (pulmões e sistema nervoso), salmonelose (infecção intestinal) e histoplasmose — esta última confirmada como causa de surto no Hospital Santa Rita, também na capital, há apenas um ano.

Como a falcoaria funciona na prática

Shiluba pertence a uma empresa de falcoaria com sede em Belo Horizonte que também opera no Aeroporto de Vitória com quatro aves. No hospital, o protocolo segue roteiro rígido:

  • Mapeamento prévio da área e definição de rotas de voo
  • Rondas matinais, quando pombos saem para comer e fluxo de pessoas é menor
  • Peso controlado em 500 g — leve demais perde controle, pesado demais perde interesse
  • Frequência decrescente: começou semanal, já está quinzenal

O biólogo David Salles, do controle ambiental do Hucam, admite: a queda populacional foi mais rápida que o previsto. O novo censo em andamento vai calibrar os próximos passos.

Predador natural, impacto zero no resto

A escolha da espécie Parabuteo unicinctus (asa-de-telha) não foi por acaso. O gavião ignora passarinhos menores — muitas vezes nem eles se assustam com a presença dele. Isso torna a técnica de baixo impacto ambiental, já adotada em aeroportos, galpões e indústrias de vários países.

Gabriel Furtado, médico-veterinário coordenador do projeto, resume: “É a relação presa-predador pura. O pombo entende a ameaça e muda de endereço.”

O que ninguém conta: a conta não fecha sem educação

O gavião afasta, mas não resolve a raiz. Se sobrar comida exposta, lixo mal acondicionado ou visitantes alimentando as aves, os pombos voltam. A equipe do hospital intensificou palestras com pacientes, funcionários e acompanhantes — inclusive apresentando Shiluba ao vivo — para mudar hábitos que sustentam a praga.

Proibido tocar na ave durante o trabalho. A orientação vale para todos.

O que observar nos próximos meses

O censo em andamento ditará se as rondas caem para mensais ou se mantêm o ritmo atual. Paralelamente, a empresa avalia replicar o modelo em outras unidades de saúde do estado. Para gestores de facilities, o caso vira referência: controle biológico bem planejado custa menos que retrofit de telhados e limpezas constantes — e resolve o problema na origem.