Economia

UE copia Trump e vai comprar minas? O segredo da corrida por terras raras

Mapa da Europa com símbolos de mineração de terras raras e bandeiras da UE e EUA
Estratégia europeia para minerais críticos espelha abordagem americana na corrida global por terras raras.

O Parlamento Europeu aprovou a criação de uma agência com poderes para adquirir participações em projetos de minerais críticos, espelhando a estratégia agressiva dos Estados Unidos. A medida mira proteger o abastecimento do bloco, mas esbarra em uma pergunta incômoda: o orçamento proposto de 2 bilhões de euros será suficiente para enfrentar gigantes como a China?

O movimento que imita Washington e Tóquio

Na semana passada, eurodeputados deram aval para a formação do futuro Centro de Matérias-Primas Críticas da UE. A entidade terá autoridade para entrar no capital de empresas do setor em “circunstâncias excepcionais”, formar estoques estratégicos e monitorar fluxos de suprimento em todo o território europeu.

A inspiração declarada vem de dois polos opostos: a Organização para a Segurança de Metais e Energia do Japão (JOGMEC) e as intervenções recentes do Pentágono. “Não é preciso reinventar a roda. É melhor simplesmente copiá-la”, resumiu o relator Mohammed Chahim.

Por que o empresário europeu deve prestar atenção

A dependência atual expõe a indústria a dois riscos concretos: a manipulação de preços por agentes dominantes e a volatilidade de cotações que torna projetos locais economicamente inviáveis. Chahim alerta que os projetos europeus são “muito sensíveis aos preços de mercado”, enquanto EUA e Japão blindaram suas cadeias com capital de Estado.

Para o setor privado, a nova agência sinaliza uma mudança de paradigma: o Estado deixa de ser apenas regulador para se tornar sócio de risco. Isso pode acelerar licenciamentos e garantir offtake agreements, mas também introduz um novo jogador nas negociações societárias.

O cheque americano que define o padrão

O governo Trump estabeleceu o parâmetro de valor em julho de 2025. O Departamento de Defesa injetou US$ 400 milhões por 15% da MP Materials, maior produtora de terras raras dos EUA, mais um empréstimo de US$ 150 milhões. O pacote incluiu um acordo de dez anos com preço mínimo de US$ 110/kg para óxido de neodímio-praseodímio, insumo vital para ímãs de veículos elétricos e robótica.

Bernd Schäfer, da EIT RawMaterials, resume o temor europeu: “Há o risco de os Estados Unidos se tornarem uma segunda China para a Europa em termos de dependência de metais de terras raras”.

Os números que explicam a urgência

  • 2 bilhões de euros (R$ 11,15 bi): dotação prevista no próximo orçamento plurianual da UE.
  • 106 projetos estratégicos já selecionados pelo bloco (60 iniciais + 46 novos este mês) com licenciamento acelerado.
  • US$ 550 milhões: investimento direto do Pentágono em uma única empresa americana (MP Materials).

O abismo entre a ambição e o caixa

O próprio Chahim admite: se o teto permanecer em 2 bilhões de euros, “não considero alta a probabilidade de o projeto ter sucesso”. A Comissão Europeia chegou a preparar uma proposta legislativa para setembro, mas recuou. A saída encontrada foi emendar a revisão da Lei de Matérias-Primas Críticas, tramitando agora no Parlamento.

A aprovação final exige consenso dos 27 Estados-membros. Alemanha e Espanha demonstravam ceticismo inicial, mas, segundo o relator, abriram canal de diálogo nas últimas semanas.

O que observar daqui para frente

Três marcos definirão se a agência sai do papel ou vira letra morta: a definição do orçamento real no próximo quadro financeiro plurianual (2028-2034), a disposição do Banco Europeu de Investimento em alavancar capital privado e a velocidade das negociações intergovernamentais. Para investidores, o sinal verde final pode reprecificar ativos de mineração e processamento na Europa — mas o timing continua incerto.