Justiça

Passaporte apreendido, jatos executivos e a teia que liga Flávio Bolsonaro a Willer Tomaz

Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz em investigação sobre passaportes apreendidos e jatos executivos
Senador Flávio Bolsonaro tem passaportes recolhidos e ligação com advogado investigado exposta.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) teve os passaportes comum e diplomático recolhidos pela Polícia Federal e está impedido de deixar o país por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF. A decisão também veta qualquer comunicação com o advogado Willer Tomaz, investigado por lavagem de dinheiro e alvo da operação Sem Desconto, que apura fraudes no INSS. O que une os dois vai muito além de amizade: a PF mapeou uma rede de sociedades, voos compartilhados e imóveis de luxo que remonta a 2019.

O fio da meada: uma holding na Ilha da Madeira

O ponto central da investigação é a Alcazar Holdings, empresa de Willer registrada em Portugal. Flávio aparece como “usuário master” da conta bancária da pessoa jurídica no exterior. A Alcazar controla a Cathedral Holdings, única acionista da Rede Loto — primeira casa de apostas online licenciada no Brasil, operando sob a marca BestBet.

A licença saiu em 2023, dois meses após a criação da Rede Loto. O presidente da Loterj na época, Hazenclever Cançado, foi nomeado por sugestão de Flávio e tinha passado profissional com Willer. A PF apura se o senador é sócio oculto da operação.

Rotas de luxo: o rastro dos jatos executivos

Desde janeiro de 2025, a PF identificou deslocamentos conjuntos em aeronaves executivas. O primeiro trecho conhecido partiu de Fort Lauderdale (EUA) com destino a Brasília, a bordo de um Legacy 650 (prefixo PP-NLR). A aeronave pertence à Fraction 024, sociedade ligada à Prime You, de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Willer afirma ter custeado a viagem com horas de sua cota pessoal e que os passageiros eram seus convidados. A mesma aeronave, segundo a PF, seria usada em uma tentativa de fuga para Dubai.

  • Janeiro 2025: Fort Lauderdale → Brasília (Legacy 650)
  • Rotas mapeadas: EUA, Europa e África
  • Aeronave-chave: Legacy 650 PP-NLR (Fraction 024 / Prime You)

A ilha em Angra dos Reis e a disputa de R$ 10 milhões

Em julho de 2020, Flávio visitou pela primeira vez uma ilha no litoral fluminense. Desde 2022, os direitos de posse pertencem a uma gestora de ativos imobiliários de Willer. O imóvel, avaliado em R$ 10 milhões, é alvo de briga judicial com o jogador Richarlison, que alega ter comprado a propriedade em 2020 — Flávio figura como testemunha no processo.

Vizinhos e o próprio atleta dizem que é o senador quem mais frequenta o local. Em maio de 2022, liminar confirmou o direito de Willer. No dia 17 deste mês, Richarlison pediu à PF que investigue a atuação de Flávio na disputa, alegando que o imóvel foi tomado “na mão grande” via manobras judiciais. Ambos negam irregularidades.

Endereço compartilhado em Águas Claras: o elo com o “Careca do INSS”

A Bravo Grafeno, fabricante de capacetes de grafeno da qual Flávio e o ex-presidente Jair Bolsonaro são sócios, funciona no mesmo endereço comercial da RPLD, construtora de Antônio Carlos Camilo — conhecido como “Careca do INSS”, também investigado por lavagem de dinheiro.

O elo se adensa: a irmã de Alexandre Caetano dos Reis (sócio majoritário do Careca) é diretora estatutária do escritório de advocacia de Flávio. O escritório fica em uma casa de R$ 6 milhões em Brasília, quitada à vista com R$ 3,4 milhões ao BRB. Entre 2023 e julho de 2026, o escritório emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais — metade para outros advogados.

Um cliente, dois advogados: a Simas Industrial

Durante a campanha presidencial de 2022, Flávio assumiu a defesa de Mário Gadelha Simas Filho, dono de uma das maiores fábricas de balas e pirulitos do país, em disputa societária. Willer já advogava para o mesmo cliente e não teve a procuração revogada — mas foi Flávio quem passou a assinar as peças processuais.

O que observar daqui para frente

As quebras de sigilo bancário, fiscal e cambial da holding de Willer na Madeira, decretadas às vésperas da eleição, podem revelar a origem dos recursos que financiaram voos, imóveis e a estrutura de bets. A PF também mira se há fluxo entre a Alcazar e contas no Brasil. Para investidores e empresários, o caso sinaliza como licenciamentos estaduais de apostas e estruturas offshore podem ser usados para blindar sócios ocultos — um risco regulatório que tende a crescer com a regulamentação federal do setor.