O Banco Central admitiu que é cedo demais para dimensionar o estrago da disparada cambial desta segunda-feira (26), mas a operação de emergência já entregou o tamanho da preocupação. O dólar saltou 11,77% na abertura, tocando R$ 5,584 — maior nível desde janeiro — forçando a autoridade monetária a injetar US$ 3,75 bilhões via swaps para estancar a sangria.
A reação violenta pegou o mercado no contrapé. Até a sexta-feira (23), a moeda fechava a R$ 4,989, embalada pela aposta majoritária na vitória do adversário. O resultado das urnas inverteu a lógica em poucas horas.
O choque em números: de R$ 4,98 para R$ 5,58 em um fim de semana
A magnitude do movimento assusta até os mais experientes. A alta de quase 12% na abertura representa a maior variação intradiária em anos, superando com folga o acumulado de queda de 2% registrado desde agosto, quando as candidaturas foram oficializadas.
O estresse foi tamanho que a B3 acionou o circuit breaker logo no início dos negócios, paralisando o Ibovespa ao atingir o gatilho de 10% de queda. O real, que vinha se firmando como uma das moedas mais fortes do ano, devolveu meses de ganhos em minutos.
- Abertura (10h14): R$ 5,584 (+11,77%)
- Fechamento anterior (sexta 23): R$ 4,989
- Patamar retomado: Níveis de janeiro (R$ 5,48)
A “bazuca” de US$ 3,75 bi: como o BC tentou domar a fera
Não houve tempo para cerimônia. Em leilão já programado para rolagem de vencimentos de 3 de novembro, o BC vendeu a totalidade dos 75 mil contratos ofertados. A operação injetou liquidez imediata no mercado futuro, dividida em dois vencimentos longos:
- 50 mil contratos para 3 de janeiro de 2027 (US$ 2,5 bi)
- 25 mil contratos para 1º de fevereiro de 2027 (US$ 1,25 bi)
O efeito foi quase instantâneo. Por volta das 13h42, a moeda já havia devolvido parte dos ganhos, cotada a R$ 5,425 — alta de 8,72%, ainda expressiva, mas distante do pico da manhã.
O recado de Fernando Rocha: “não há reação instantânea”
Chefe do departamento de Estatísticas, Fernando Rocha foi direto ao ponto: “é muito cedo para afirmar algum impacto hoje”. A cautela não é apenas diplomacia. Para ele, o balanço de pagamentos não reage mecanicamente a um susto cambial.
O cenário desenhado pela autoridade monetária prevê três caminhos possíveis: a devolução integral da alta, a permanência parcial do novo patamar ou a fixação definitiva do dólar acima de R$ 5,50. A definição depende da interação entre política fiscal, dados de atividade e a resposta do fluxo externo nas próximas semanas.
O que o boletim Focus não viu (e o que vem por aí)
Há um detalhe crucial: as projeções do mercado divulgadas nesta segunda pelo Boletim Focus — dólar a R$ 5,05 no fim de 2023 e R$ 5,15 no fim de 2024 — foram colhidas antes do resultado eleitoral. Ou seja, o consenso dos analistas ainda reflete o cenário de vitória da oposição.
A atualização dessas expectativas nas próximas edições do relatório será o termômetro real da nova precificação de risco. Enquanto isso, o BC sinaliza que mantém o dedo no gatilho: novos leilões de rolagem e de linha podem ser anunciados a qualquer momento se a volatilidade persistir.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o ritmo nos próximos dias: a velocidade de formação da equipe econômica, o desenho do novo arcabouço fiscal e a disposição do fluxo estrangeiro em sustentar posições em real. O dólar a R$ 5,40 deixou de ser teto para virar piso de negociação — e o BC já mostrou que vai defender esse chão com estoques robustos de swaps. Quem opera câmbio ou precifica ativos no Brasil precisa recalibrar modelos: a assimetria de risco mudou de lado.
