Os maiores gestores de aposentadoria do país estão redesenhando o mapa de R$ 1,3 trilhão — e a rota não passa mais pelos fundos imobiliários nem pelos Estados Unidos. Uma pesquisa inédita revela que metade dos fundos de pensão pretende ampliar a exposição internacional nos próximos 12 meses, mas com um detalhe crucial: o foco migrou para mandatos globais.
O levantamento, conduzido pela associação que representa o setor (Abrapp), ouviu gestores responsáveis por R$ 461 bilhões, quase um terço do total administrado. O recado é direto: a concentração em títulos públicos brasileiros atingiu níveis históricos, enquanto a bolsa encolheu a uma fatia residual.
O fim do “amor” pelos fundos imobiliários
Vinte e oito por cento dos entrevistados declararam intenção de reduzir posições em FIIs. Nenhum — zero — disse pretender aumentar. O movimento não garante queda imediata nas cotas, mas sinaliza uma mudança estrutural de prioridades entre os maiores players institucionais.
Enquanto o investidor pessoa física ainda corre atrás de dividendos mensais, os tubarões já viraram a página. A pergunta que fica: quanto tempo até o reflexo chegar no preço dos ativos?
Renda fixa: o governo virou “anfitrião generoso”
Em 2013, a carteira típica tinha 34% em ações e 56% em renda fixa. Treze anos depois, o cenário inverteu drasticamente: apenas 4,7% em bolsa contra 86,2% em renda fixa. De cada R$ 10 alocados nessa classe, R$ 9 estão em papéis do Tesouro.
Com juros reais elevados, alongar prazo virou regra. Títulos com vencimento superior a cinco anos saltaram de 14% para 51% das carteiras de dívida pública em apenas três anos. O risco de mercado foi trocado por risco de crédito soberano — a aposta mais confortável quando a Selic paga prêmio generoso.
A silenciosa revolução dos ETFs e da gestão passiva
A forma de acessar ações também mudou. A gestão passiva — replicar índices em vez de escolher papéis — saiu de 15% para 36% da fatia de renda variável em 13 anos. ETFs deixaram de ser nicho e viraram ferramenta central para exposição diversificada, de renda fixa a teses setoriais.
- Mandatos globais: subiram de 59% para 67% das estratégias internacionais
- Foco exclusivo EUA: caiu de 38% para 25%
- FIIs: 28% querem reduzir, 0% querem ampliar
- Títulos longos: 51% da carteira de públicos (era 14% em 2021)
O ouro, frequentemente vendido como refúgio infalível, acumula queda superior a 6% no ano. O lembrete é duro: não existe ativo que só sobe, apenas ciclos que os grandes captam antes.
O que observar daqui para frente
Se a tendência se confirmar, três movimentos merecem monitoramento contínuo: a pressão vendedora sobre FIIs pode criar pontos de entrada para quem tem horizonte longo; a migração para mandatos globais amplia a correlação da carteira brasileira com ciclos externos; e a dominância de títulos longos expõe o sistema a risco de marcação a mercado caso a curva de juros feche rápido. Para o investidor individual, a lição permanece: seguir a maré dos tubarões costuma ser mais seguro do que remar contra — desde que se entenda onde a correnteza realmente vai.
