O senador Flávio Bolsonaro (PL) chega à disputa presidencial de 2026 carregando um dossiê de conexões que vai muito além do gabinete parlamentar. Investigações policiais, relatórios de inteligência financeira e reportagens de veículos independentes desenham uma teia de relações com milícias, facções do tráfico, esquemas de previdência e o mercado de apostas online.
O padrão repete-se: nomes próximos ao parlamentar aparecem em operações que envolvem lavagem de dinheiro, desvio de verbas públicas e contratos suspeitos. A pergunta que fica é como isso pesará na urna.
O mapa das alianças no Rio de Janeiro
Dois aliados diretos de Flávio no estado foram presos por vínculos com o Comando Vermelho: TH Jóias e Rodrigo Bacellar. Em paralelo, o parlamentar já homenageou milicianos em discurso público e nomeou a mãe e a irmã do chefe do chamado “Escritório do Crime” para cargos no gabinete.
Um levantamento do pesquisador Bruno Pantaleão, da FGV, quantificou o reflexo eleitoral dessa proximidade: no primeiro turno, Flávio obteve 5,6 pontos percentuais a mais nas áreas sob controle de milícias do que na média do estado.
O elo Belford Roxo — Brasília
Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e aliado de longa data, é acusado pela Polícia Federal de lavar dinheiro “ecumenicamente” — tanto para milícias quanto para o Comando Vermelho. Foi Canella quem alavancou a eleição de Antonio Rueda, presidente do União Brasil, para deputado federal. Pernambucano sem base no Rio, Rueda elegeu-se quase exclusivamente com votos de Belford Roxo.
Segundo reportagem de Malu Gaspar (novembro de 2025), o partido de Rueda controlava duas joias da coroa fluminense: a previdência estadual e a companhia de água. Juntas, despejaram bilhões no Banco Master.
O dinheiro do Banco Master e a promessa de R$ 130 milhões
Daniel Vorcaro, dono do Master, prometeu repassar R$ 130 milhões à campanha de Flávio — valor idêntico ao que teria sido ofertado ao ministro Alexandre de Moraes. A versão do senador: o recurso financaria um filme. A coincidência de valores e destinatários, porém, acendeu alertas em setores de compliance e no mercado financeiro.
- Destinatário 1: Flávio Bolsonaro (candidato à Presidência)
- Destinatário 2: Alexandre de Moraes (ministro do STF)
- Valor: R$ 130 milhões (cada)
- Origem: Banco Master (Daniel Vorcaro)
Bets, Rolex e a conta com Willer Tomaz
Flávio manteve conta conjunta com Willer Tomaz, advogado preso por corrupção e investigado por lavar dinheiro desviado do INSS — o mesmo caso em que “Lulinha” foi citado, sem provas até o momento. Tomaz é conhecido como o maior apostador do Brasil e responde por lavagem via plataformas de bets.
Nesta semana, veio a público que ambos eram sócios em uma empresa de apostas online que Flávio nunca declarou publicamente.
Outro episódio: a revista piauí revelou que o senador ganhou um Rolex de empresário acusado de superfaturar vacinas na pandemia. A entrega ocorreu em festa no Lago Paranoá, em Brasília, com a presença de garotas de programa. À época, o Brasil concentrava um terço das mortes mundiais pela Covid-19; estudo USP/FGV estima 145 mil óbitos evitáveis por falta de imunizantes na segunda onda.
O que observar daqui para frente
Flávio Bolsonaro tem o direito de se defender de cada ponto. Mas o acúmulo de frentes — milícias, tráfico, previdência, bets, Banco Master, vacinas — cria um cenário de risco reputacional e jurídico raro para um presidenciável.
Se apenas 5% dos eleitores que o escolheram no primeiro turno priorizarem o critério anticorrupção com o mesmo peso que deram a outros nomes no passado, a equação eleitoral muda. O segundo turno, se houver, será jogado sob lupa.
Para investidores e analistas de risco político, três variáveis merecem monitoramento contínuo: o andamento dos inquéritos no STF e no STJ, a evolução da CPI das Bets no Senado e o comportamento do eleitorado de direita diante de denúncias que espelham as mesmas acusações que o bolsonarismo historicamente faz a adversários.
