Economia

Do 28º ao 62º: o choque de realidade da indústria que ninguém previu

Gráfico mostra queda do Brasil da 28ª para 62ª posição no ranking industrial global
Brasil despenca 34 posições no ranking mundial de crescimento industrial em dois anos

O Brasil despencou da 28ª para a 62ª posição no ranking mundial de crescimento industrial em apenas dois anos. A distância para a média global aumentou sete vezes no último comparativo trimestral. Entender os gatilhos dessa queda é decisivo para quem decide onde alocar capital nos próximos meses.

Dados da Unido compilados pelo Iedi mostram que a indústria de transformação global avançou 7,6% no segundo trimestre ante igual período de 2025. A brasileira mal saiu do lugar: alta de 0,84%. O abismo não é conjuntural; reflete uma combinação de juros reais elevados, estrutura de custos crônica e uma aposta setorial que ignora a nova dinâmica tecnológica mundial.

O peso da Selic nos setores que puxam investimento

A escalada da taxa básica — de 10,50% em setembro de 2024 para 15% em junho de 2025, hoje em 13,75% — funcionou como freio de mão puxado para a manufatura. Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi, explica que a sensibilidade é dupla: derruba a demanda por bens duráveis (dependentes de financiamento) e eleva o custo de oportunidade de investir em máquinas.

O resultado aparece nos números setoriais até agosto:

  • Bens de capital (máquinas e equipamentos): queda acumulada de 5,3% no ano, após recuo de 1,7% em 2025 (havia crescido 9% em 2024).
  • Bens de consumo duráveis: alta de apenas 2,1% no acumulado, contra 10,7% no ano anterior.

“Para investir em bens de capital, o retorno precisa bater a Selic. Caso contrário, o título público vence”, resume Cagnin. Segmentos atrelados à renda corrente — alimentos, vestuário, calçados — sofrem menos, mas não sustentam a expansão agregada.

Por que o resto do mundo acelera e o Brasil fica parado

Há um motor externo que o Brasil não consegue acoplar. A indústria global cresce puxada por setores de alta intensidade tecnológica: digitalização, transição energética, computadores (+3,4%) e equipamentos de transporte (+3,8%). Desde a pandemia, esses ramos expandem ao dobro da média industrial.

O problema estrutural é que esses segmentos são sub-representados na matriz produtiva nacional. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, aponta o “custo Brasil” — burocracia, tributação, energia cara, mão de obra onerosa — somado a uma economia historicamente fechada. “Ficamos expostos a commodities e perdemos o bonde da manufatura avançada”, diz. A concorrência chinesa nas importações industriais adiciona pressão sobre a produção doméstica de média tecnologia.

O cenário para 2027 e o que muda a equação

A projeção consensual entre analistas é de continuidade restritiva. A queda dos juros é lenta e sua transmissão à atividade real demora trimestres. Endividamento de famílias e empresas, somado à incerteza do ciclo eleitoral, mantém a confiança baixa justamente nos setores que decidem grandes investimentos.

Cagnin alerta: “A indústria reage, mas apenas para estancar a queda”. Para 2027, a expectativa é de nova desaceleração, condicionada à estratégia econômica do próximo governo e ao ritmo de corte da Selic. Do lado da oferta, a saída apontada por Vale passa por acordos comerciais profundos — como o em negociação com a União Europeia — e pela redução efetiva dos custos estruturais de produção.

O que observar daqui para a frente

Três variáveis ditam o ritmo de recuperação nos próximos relatórios: a velocidade de transmissão da queda da Selic para o crédito de longo prazo, a aprovação de medidas que ataquem o custo Brasil (tributária, infraestrutura, energia) e a execução de acordos comerciais que abram mercado para manufaturados de maior valor agregado. Enquanto isso, a rotação setorial continua: commodities e serviços de renda corrente carregam o PIB; a indústria de transformação segue no banco de reservas.