Justiça

O segredo da cidade onde Lula e Flávio empataram com 574 votos cada

Cidade pequena de Trabiju SP com urna eleitoral e números 574 votos empate Lula Flávio Bolsonaro
Trabiju (SP): o município onde Lula e Flávio Bolsonaro empataram com exatamente 574 votos cada no primeiro turno.

Em Trabiju, no interior de São Paulo, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) saíram do primeiro turno com um feito estatístico raro: 574 votos para cada lado, um empate matemático que expõe a divisão radical de um eleitorado de 1.649 aptos. Mas o que acontece nas ruas quando a política racha até a mesa de jantar? A resposta revela estratégias de silêncio, convencimento e convivência que vão muito além das urnas.

O retrato numérico de um racha perfeito

Com 1.682 habitantes, o município registrou 1.243 comparecimentos no primeiro turno. Dos votos válidos, 46,18% foram para cada um dos dois principais candidatos. A precisão do empate chama a atenção: não houve vantagem de um único sufrágio. Houve ainda 35 votos nulos, 27 em branco e 344 abstenções.

O fenômeno não foi isolado. Em Crixás do Tocantins (TO), o placar também fechou empatado: 679 a 679, representando 47,75% dos válidos para cada lado. Duas realidades distantes, mesmo roteiro de polarização absoluta.

Quando a disputa entra em casa

A vendedora Geisica Correia dos Santos Jesus, 35 anos, vive a polarização no travesseiro. Ela e o marido votam em candidatos opostos. Apesar do abismo ideológico, a rotina não muda. “A gente se respeita. Algumas coisas não concordamos, mas é só isso e nada mais”, resume. O casal assistiu junto ao debate presidencial, prova de que a convivência supera o embate partidário.

Geisica admite, porém, que o clima na cidade é tenso. “A cidade está bem dividida. Já presenciei vários debates do pessoal por causa de política.” O empate nas urnas apenas oficializou o que já se via nas esquinas.

A estratégia do voto invisível

Para a balanceira Aline Aparecida Alves Amorim, 35 anos, a saída encontrada foi o silêncio. “Meu voto a família não sabe. Política e religião não se discute”, afirma. A decisão vem de experiências ruins: parentes já brigaram fisicamente por divergências políticas.

Ela defende a discrição como ferramenta de sobrevivência social. “Devemos saber conversar e resolver, pois temos que trabalhar do mesmo jeito.” Em um município onde todos se conhecem, esconder a preferência virou método para manter a paz e o emprego.

O ativismo de porta em porta (e de tela em tela)

Do outro lado, o porteiro Fabio Rogério Pinheiro, 46 anos, atua como cabo eleitoral informal. “Tentei convencer algumas pessoas, sim, a votar no meu candidato. As pessoas levando numa boa, sabe? Um respeitando o outro”, conta. A abordagem mistura persuasão nas redes sociais e conversas presenciais, sempre medindo o limite para não romper laços.

Ele revela a surpresa coletiva com o resultado. “Ficamos surpresos quando foram apuradas as urnas. Para nós, moradores, foi um choque Flávio e Lula terem empatado.” A mobilização para o segundo turno, dia 25 de outubro, deve intensificar esse corpo a corpo silencioso.

O que observar daqui para frente

O empate técnico obriga os dois polos a disputarem os votos residuais — nulos, brancos e abstenções — e a tentarem “virar” eleitores do lado oposto. Em uma amostra tão pequena, uma mudança de 10 votos já altera a narrativa. O segundo turno em Trabiju será decidido não no palanque, mas na conversa de WhatsApp, no balcão do comércio e na mesa de domingo. Quem conseguir transformar respeito em voto leva a melhor.