Internacional

Flávio Bolsonaro barra Eduardo no Itamaraty e sinaliza guinada ao centrão: o que muda no tabuleiro

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em sessão no Senado, protagonista de veto a Eduardo Bolsonaro no Itamaraty
Flávio Bolsonaro barra irmão Eduardo no Ministério das Relações Exteriores e aproxima governo do centrão

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vetou a indicação do próprio irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), para chefiar o Ministério das Relações Exteriores. A decisão, anunciada em meio a negociações de bastidor, reconfigura a disputa por espaço no governo e abre caminho para uma aproximação explícita com o centrão.

Até horas antes do anúncio, a nomeação de Eduardo era tratada como favas contadas nos círculos mais próximos da família. Três interlocutores diretos da campanha presidencial confirmavam a escolha. A reversão repentina expõe uma fratura na estratégia de poder dos Bolsonaro.

O movimento que ninguém previu

Flávio articulou a retirada do nome do irmão em conversas reservadas com líderes do PL e do Republicanos. O argumento central: a indicação de Eduardo geraria resistência no Senado, onde a aprovação de embaixadores e tratados exige maioria qualificada.

Com a vaga em aberto, o Palácio do Planalto ganha moeda de troca para acomodar aliados do centrão em pastas estratégicas. A Secretaria de Governo e a liderança do governo no Congresso estão entre os cargos em negociação.

Impacto direto na base aliada

A decisão reverbera em três frentes imediatas:

  • Senado: Flávio fortalece seu capital político junto a Davi Alcolumbre (União-AP) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG), figuras-chave para pautas de interesse do clã.
  • Câmara: Eduardo perde protagonismo na articulação internacional, mas mantem influência na Comissão de Relações Exteriores.
  • Eleitorado bolsonarista: Setores mais ideológicos veem o gesto como concessão excessiva ao establishment.

Por que o Itamaraty virou moeda de troca

O Ministério das Relações Exteriores controla 224 representações diplomáticas e um orçamento superior a R$ 3,2 bilhões. Mais que recursos, a pasta define o alinhamento internacional do Brasil — tema sensível para o agronegócio, para a indústria de defesa e para acordos comerciais com a União Europeia e o Mercosul.

Um nome indicado pelo centrão tende a adotar postura pragmática, priorizando resultados comerciais sobre alinhamentos ideológicos. Isso atende a demanda de exportadores que pressionam por previsibilidade nas relações com a China e os Estados Unidos.

O xadrez familiar exposto

Nos bastidores, a relação entre os irmãos Flávio e Eduardo sempre oscilou entre parceria e rivalidade velada. Flávio comanda a estrutura partidária no Rio e a articulação no Senado. Eduardo construiu rede própria nas redes sociais e no circuito conservador internacional.

A decisão de Flávio de “rifar” o irmão — termo usado por um integrante do PL ouvido sob reserva — sinaliza que a sobrevivência política do clã, hoje, depende mais de votos no Congresso do que de likes no Twitter.

Cenários para os próximos 60 dias

Três desdobramentos merecem monitoramento:

  • Nomeação de um técnico ou político do centrão para o Itamaraty — o prazo informal para anúncio é março.
  • Reação de Jair Bolsonaro, que ainda não se manifestou publicamente. O silêncio do ex-presidente pode indicar concordância tática ou desconforto contido.
  • Posicionamento de Eduardo: se aceita cargo alternativo (Embaixada em Washington? Liderança do PL na Câmara?) ou parte para oposição interna.

O que observar daqui para frente

A disputa pelo Itamaraty é apenas a ponta visível de uma reorganização mais ampla. O centrão exige, em troca de apoio a pautas prioritárias do governo Lula — como a reforma tributária e o arcabouço fiscal —, espaço na Esplanada e influência em agências reguladoras.

Para empresários e investidores, o sinal claro é: a política externa brasileira caminha para um pragmatismo voltado a resultados comerciais mensuráveis. Quem opera com câmbio, comércio exterior ou captação de recursos no exterior deve incorporar essa variável nos modelos de risco-país para 2025.