Dois estudantes do ensino fundamental de Apucarana (PR) desenharam, testaram e apresentaram um protótipo de silo com visor lateral que elimina a necessidade de subir na estrutura para conferir o nível de ração. A solução ataca um problema que matou 394 trabalhadores no Brasil entre 2021 e 2025 — e promete reduzir perdas operacionais em até 15%, segundo estimativa de um granjeiro da região.
Lucas de Andrade Campos (12) e Enzo de Almeida Gomes (13) não são engenheiros. São alunos do 7º e 8º ano do Colégio Estadual Cívico-Militar Heitor Furtado de Alencar. O projeto nasceu de uma observação simples: nos silos tradicionais, feitos de chapa galvanizada, ninguém enxerga o que tem dentro.
O problema invisível que custa caro e mata
Apucarana concentra mais de 300 aviários e 600 silos. Em cada um, a rotina de checar o estoque exige que alguém suba na estrutura, abra a tampa e olhe para dentro. Um gesto repetido diariamente — e que carrega riscos fatais.
Dados da Auditoria-Fiscal do Trabalho (Ministério do Trabalho e Emprego), consolidados em 2026, mostram o tamanho da conta:
- 394 mortes em acidentes com silos e estruturas de armazenagem (2021–2025)
- 39,4% por soterramento
- 18,7% por quedas
O visor lateral proposto pelos alunos permite a leitura do nível de ração do chão. Zero subida. Zero abertura. Zero exposição ao risco.
Da garrafa PET ao reconhecimento nacional
O primeiro protótipo foi construído com uma garrafa PET. Parece pouco, mas foi o suficiente para validar o conceito: o deslocamento da ração, a posição ideal do visor, a dinâmica de escoamento. Tudo documentado em relatório científico e diário de bordo.
A orientação coube à professora de Educação Especial Silvia Wilxenski. Ela reforça que o objetivo era colocar os alunos no centro da pesquisa — da hipótese à apresentação.
“Eles aprenderam a pesquisar, dividir responsabilidades, superar dificuldades, rever ideias e apresentar uma solução para um problema real das granjas da região.”
O trabalho, batizado de “Silo inteligente para aviário com visor de nível para monitoramento de conversão alimentar”, foi um dos 200 selecionados para a 5ª Feira Científica do Núcleo de Altas Habilidades/Superdotação (FENAAH/S), em Foz do Iguaçu. A edição de 2026 recebeu 867 inscrições de escolas estaduais do Paraná.
Por que isso interessa ao setor produtivo
Além da segurança, o visor ataca outro ponto sensível: a conversão alimentar. Saber exatamente quanto de ração resta no silo evita dois cenários caros — o desabastecimento (que paralisa a produção) e o acúmulo prolongado (que degrada o alimento e favorece micotoxinas).
Egídio Wilxenski, granjeiro associado à cooperativa Cocari e entrevistado pelos alunos, estima que o controle visual contínuo pode cortar em até 15% as perdas ligadas ao manejo inadequado da ração. O número ainda não foi validado em escala real — mas será testado na próxima fase.
O que vem agora: validação em escala real
A segunda etapa do projeto começa em outubro. Os estudantes farão visitas de campo a cooperativas para:
- Mapear diferentes tipologias de silos usados nas propriedades
- Conversar com técnicos e operadores sobre restrições de instalação
- Avaliar adaptações do visor para estruturas existentes (retrofit) e novos projetos
O objetivo é definir especificações técnicas, custos de implementação e viabilidade regulatória — passos indispensáveis para transformar o protótipo em produto comercializável.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se a inovação sai da feira de ciências para o galpão do granjeiro:
- Normatização: o visor precisará atender a normas de segurança (NRs) e de armazenagem de grãos
- Custo-benefício: o retrofit deve ser mais barato que o custo anualizado dos acidentes e perdas atuais
- Adoção cooperativa: Cocari e outras cooperativas regionais podem acelerar a difusão se validarem o ganho de 15%
Enquanto isso, dois adolescentes de Apucarana provam que inovação industrial não nasce só em centros de P&D milionários. Às vezes, começa com uma garrafa PET, uma pergunta incômoda e a coragem de subir no silo — só que no papel.
