A China acaba de ultrapassar a média dos países ricos em investimento em pesquisa: 2,8% do PIB em 2025. O Brasil, com 1,23% em 2024, vê o abismo aumentar. A diferença não é apenas numérica — ela define quem vai ditar as regras da economia nas próximas décadas.
No começo dos anos 2000, o Brasil estava à frente. O que mudou?
O motor que o Brasil não liga
A virada chinesa tem dono: as empresas. Em 2025, elas bancaram 77,4% de todo o P&D do país e responderam por quase três quartos do crescimento dos gastos. Quando o setor privado lidera, a pesquisa sai do laboratório e vira produto, processo, tecnologia vendável.
No Brasil, o dinheiro público ainda carrega o piano. O resultado: patentes que não viram fábrica, papers que não viram faturamento.
Por que isso atinge seu bolso hoje
Produtividade estagnada. Dependência de tecnologia importada. Perda de mercado para concorrentes que inovam mais rápido. Para o empresário ou investidor brasileiro, o baixo P&D empresarial não é “problema de governo” — é risco de balanço.
Cada ponto percentual a menos em P&D sobre o PIB significa bilhões em valor não criado, empregos de alta qualificação não gerados, margens comprimidas pela concorrência externa.
Metas que viram pó há 20 anos
A nova Estratégia Nacional (ENCTI), aprovada em julho, mira 2% do PIB em 2034. Soa familiar? Metas idênticas são anunciadas desde o começo do século. Nenhuma foi batida.
O pico brasileiro foi 1,28% em 2015. Desde então, estagnação. O economista Danilo Jorge Vieira resume: metas gerais não geram gestão. Falam-se em “objetivos vinculados a programas, setores e resultados verificáveis”.
Duas propostas, uma lacuna comum
Lula aposta no fortalecimento da estrutura existente: Finep, FNDCT, BNDES, Embrapii, Nova Indústria Brasil. O economista Paulo Morceiro elogia os instrumentos, mas critica a dispersão setorial — muitos objetivos, pouca concentração de fogo.
Flávio Bolsonaro foca na ponta: patentes, transferência de tecnologia, compras públicas inovadoras, IA para PMEs. Toca no nó real (transformar ciência em uso produtivo), mas não detalha financiamento nem execução. Como conciliar retorno rápido com pesquisa básica de longo prazo?
Ambos silenciam sobre o essencial: como fazer a empresa brasileira investir o próprio dinheiro em inovação.
Os instrumentos na mesa — use-os ou perca-os
- Finep: R$ 450 milhões recém-ampliados para Norte, Nordeste e Centro-Oeste; 114 projetos (75% micro/pequenas)
- FNDCT: Fundo setorial com recursos não reembolsáveis para risco tecnológico
- BNDES: Linhas de crédito para inovação e modernização industrial
- Embrapii: Cooperação empresa-universidade com aporte público
- Lei do Bem: Incentivo fiscal para P&D interno (subaproveitado)
O teste real da Finep
A chamada recente recebeu 587 propostas — a demanda existe. Mas aprovar projeto não é entregar resultado. A pergunta que fica: quantos viram produto no mercado? Quantos puxaram investimento privado adicional? Qual o ganho de produtividade medido?
Lula promete turbinar a agência. O plano de Flávio Bolsonaro não a menciona. O silêncio também é resposta.
O que o setor privado deve fazer agora
Não espere o governo perfeito. Mapeie hoje quais instrumentos cabem no seu setor, porte e estratégia. Exija do poder público: regras estáveis, menos burocracia, articulação entre verba de pesquisa e verba de escala. E cobre que incentivo público adicione investimento privado — não o substitua.
A difusão de tecnologias já prontas (IA, automação, biotecnologia) pode dar salto de produtividade antes de qualquer nova política nascer.
O que observar daqui para frente
O próximo governo terá de desenhar o Plano de Ação 2027–2031 da ENCTI. Empresas e entidades podem — e devem — sentar à mesa para exigir: prioridades claras, metas por programa/setor, indicadores de resultado (não de esforço), e avaliação contínua.
Quem não se organiza para influenciar esse desenho, aceita o que vier. E o que veio nos últimos 20 anos não funcionou.
