Saúde

Afastamentos por vício em bets disparam 441% e expõem conta oculta no RH

Gráfico mostra alta de 441% em afastamentos por ludopatia no INSS após regulamentação de bets online, impactando RH
Afastamentos por vício em apostas online quintuplicam em dois anos, onerando empresas e revelando crise oculta no mercado de trabalho.

O número de trabalhadores afastados pelo INSS por ludopatia quintuplicou em apenas dois anos, saltando de 67 para 363 benefícios ativos. O gatilho coincide com a regulamentação das apostas online em dezembro de 2023, e a conta começa a chegar nos balanços de RH das empresas.

Um estudo inédito da Subsecretaria de Estatísticas do Ministério do Trabalho revela que o fenômeno não para nos atestados: a rotatividade entre quem tenta tratamento explodiu. Quatro em cada dez beneficiários perderam o vínculo formal em 2025.

O salto que assusta os departamentos de pessoal

Os dados cruzam registros da Previdência Social e do Ministério do Trabalho. Em 2023, ano da liberação das bets, foram 67 auxílios-doença por transtorno do jogo. No ano seguinte, o total dobrou para 136. Em 2025, a marca atingiu 363 — alta de 441% no biênio.

Paula Montagner, autora do levantamento, alerta: embora a amostra seja pequena, a velocidade do crescimento sinaliza um problema de saúde pública que invadiu o ambiente corporativo. “A restrição aos jogos busca recuperar a saúde mental de trabalhadores que, em busca de alívio financeiro, mergulham em dívidas desesperadoras”, afirma.

Perfil da crise: homens, 30 a 49 anos, força de trabalho prime

O recorte demográfico acende um alerta para a produtividade. O grupo de risco concentra justamente a faixa etária de maior experiência e responsabilidade nas organizações:

  • Gênero: 70% homens;
  • Idade: 67% entre 30 e 49 anos;
  • Diagnóstico: Ludopatia (CID-10), validada por perícia médica do INSS.

Não se trata de apostadores casuais. O benefício exige comprovação de incapacidade temporária total para o trabalho, com necessidade de tratamento psiquiátrico especializado.

O efeito dominó: demissões superam a média do mercado

O dado mais sensível para gestores está na taxa de desligamento. Entre trabalhadores já afastados para tratar o vício, a fatia de contratos encerrados subiu de 35% (2023) para 42,5% (2025).

Quase 70% das saídas ocorreram a pedido do empregado ou sem justa causa — padrão semelhante ao mercado geral, mas num volume muito superior. A hipótese dos pesquisadores: o endividamento severo e a instabilidade emocional provocados pelo vício precipitam a decisão de sair, mesmo sem uma demissão formal por desempenho.

O tamanho da conta financeira

Enquanto o RH lida com absenteísmo e turnover, o volume financeiro drenado da economia real impressiona. Segundo o mesmo levantamento, os brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas plataformas em 2025.

Desse montante, R$ 36,9 bilhões viraram prejuízo líquido dos apostadores — receita direta das operadoras. Estimativas projetam que a proibição ou restrição severa poderia liberar até R$ 40 bilhões anuais no orçamento das famílias.

O que observar daqui para frente

O estudo admite cautela: são números iniciais, grupos reduzidos com acesso ao benefício. Mas a correlação temporal com a legalização da publicidade massiva é forte.

Para líderes de negócios, o movimento exige duas frentes: monitorar indicadores de saúde mental e endividamento nos programas de bem-estar, e revisar políticas de apoio a tratamentos longos — pois a legislação trabalhista garante estabilidade provisória durante o auxílio-doença, mas a retenção real está falhando.

O próximo capítulo depende da regulação do jogo responsável e da capacidade das empresas de detectar sinais precoces antes que o atestado chegue à mesa.