Economia

O segredo que ninguém conta: 70% dos refugiados no Brasil estão desempregados — e a solução vem de onde você menos espera

Grupo de refugiados diversos em evento de empregabilidade em São Paulo, com Victor Arce, marceneiro venezuelano, vendendo artesanato
Evento em São Paulo reúne 137 migrantes de 23 países para combater o desemprego que atinge 70% dos refugiados no Brasil.

Um evento em São Paulo reuniu 137 migrantes de 23 países para resolver um problema que atinge 70% deles: o desemprego. A maioria carrega diplomas e experiência, mas esbarra em barreiras que o mercado ignora. O que aconteceu naquele sábado revela um caminho que empresas e governos ainda não exploraram direito.

Victor Arce, 65 anos, marceneiro na Venezuela, passou a manhã vendendo artesanato enquanto a esposa tratava um problema de saúde no sistema público brasileiro. Em dois meses, ela resolveu o que custaria fortunas no país de origem. Ele não quer caridade — quer abrir uma microempresa. A história dele se repete em dezenas de cadeiras na Aliança Brasil Cidadã, no centro da capital.

O número que assusta e a oportunidade que ninguém vê

Maria Helena Santuche, do Grupo Mulheres do Brasil, trouxe o dado duro: sete em cada dez participantes estavam sem trabalho. Mais da metade quer empreender, mas por necessidade, não por vocação. Flavio Simonato, da Konecta Brasil, resume o gargalo: “Eles precisam adequar documentação, preparar currículo no padrão brasileiro e entender como o mercado daqui funciona”.

A ação “Conexões que Transformam” ofereceu tudo isso num só dia: workshops, revisão de CV com tradução, apoio documental, vagas reais, cestas básicas e brinquedos para crianças. Não foi mutirão assistencialista — foi ponte técnica entre talento bruto e exigência formal.

Perfil dos participantes: médicos, engenheiros, artesãos

Eliane Franco Figueiredo, co-fundadora do Grupo Mulheres do Brasil, lista as nacionalidades predominantes: Venezuela, Congo, Haiti. Entre os inscritos, há médicos impedidos de clinicar pela demora na revalidação de diploma. A solução temporária? Capacitação em áreas com entrada mais rápida enquanto a burocracia anda.

  • Principais nacionalidades: Venezuela, Congo, Haiti, Afeganistão, Irã, Síria, Palestina
  • Desempregados: 70% do total
  • Querem empreender: mais de 50%
  • Nacionalidades representadas: 23

Vivian Holzhacker, do Acnur, coloca em perspectiva: mais de um milhão de pessoas em situação de refúgio ou necessidade de proteção vivem no Brasil hoje, vindas de 160 países. Muitas chegam com formação superior e anos de experiência. O choque não é falta de habilidade — é idioma, validação de documentos, ausência de rede de apoio e urgência de renda.

A barreira invisível: diploma na gaveta, urgência na conta

“Quem foge de guerra ou perseguição não organiza pastas”, diz Vivian. Documentos perdidos, não traduzidos ou fora do padrão brasileiro travam a entrada no mercado formal. Resultado: profissionais qualificados aceitam qualquer ocupação para sobreviver, gerando desperdício de capital humano que o país não pode se dar ao luxo de ignorar.

O português como única língua oficial de um continente hispanófono agrava o isolamento. Cursos de idioma existem, mas raramente são integrados a trilhas de empregabilidade. A ação de sábado tentou fechar essa lacuna com palestras sobre cultura de trabalho brasileira e entrevistas simuladas.

O que funciona e como replicar

Sidnea Evangelista, da Aliança Brasil Cidadã, aponta caminhos permanentes: cursos gratuitos o ano todo — informática, inteligência artificial, manicure — com inscrição aberta. O Acnur mantém a plataforma Help, que mapeia organizações por estado e município. O Grupo Mulheres do Brasil atende pelo e-mail refugiados@grupomulheresdobrasil.org.br.

Mas a lição central não está nos contatos. Está no modelo: ação concentrada, multissetorial, com entrega imediata (vagas, currículo pronto, documento encaminhado) e continuidade garantida (cursos, plataforma, rede). Empresas que participaram saíram com currículos na mão. Migrantes saíram com entrevista agendada.

O que observar daqui pra frente

O Brasil tem 1 milhão de pessoas com proteção internacional. Se 70% estão fora do mercado formal, são 700 mil trabalhadores potenciais travados por burocracia e falta de ponte. A revalidação de diplomas de saúde segue lenta. O idioma segue barreira. Mas eventos como este provam que a solução não exige lei nova — exige coordenação entre quem contrata, quem capacita e quem acolhe. Quem mover primeiro nessa direção vai acessar um pool de talento que a concorrência ainda não enxergou.