A empresária goiana Nathália Secco acaba de entrar para a lista das 100 Mulheres Poderosas do Agro 2026 da Forbes Brasil, mas sua trajetória foge completamente do script tradicional do setor. Antes de comandar milhões em inovação no campo, ela era uma cantora lírica com disco gravado pela Universal Music aos 14 anos. O que fez uma artista de ópera virar peça-chave na tecnologia agrícola brasileira?
A resposta passa por uma reviravolta biológica que calou sua voz — e abriu caminho para um império de R$ 6 milhões em venture capital aplicado em lavouras de soja, milho e algodão.
O acidente de percurso que redirecionou a carreira
Formada em Canto Lírico pela UFG, Nathália carregava um problema vocal congênito que a impediu de seguir nos palcos de ópera. Após cirurgia e longa reabilitação, precisou reaprender a cantar com uma extensão vocal alterada. O sonho da música clássica deu lugar a uma constatação prática: nem sempre a vida segue o roteiro planejado.
Foi nesse vácuo que a experiência de quatro anos na empresa agropecuária dos pais fez sentido. Ela enxergou no campo o mesmo palco que perdeu nos teatros: complexidade técnica, necessidade de precisão e espaço para inovação.
Duas empresas, um objetivo: conectar startup ao produtor
Em 2019, nasceu em Rio Verde (GO) o Orchestra Innovation Center, apresentado como a primeira aceleradora de agtechs do estado. O modelo aproxima startups — muitas estrangeiras — de fazendas reais para testar soluções em agricultura de precisão, biotecnologia e ferramentas digitais.
Três anos depois, veio a Orchestra Ventures. O fundo inicial de R$ 6 milhões reuniu capital da própria fundadora, quatro empresas e três produtores rurais da região. O foco: investir em startups que resolvam dores concretas da lavoura.
- Área impactada: cerca de 200 mil hectares no sudoeste goiano.
- Culturas: soja, milho, cana-de-açúcar e algodão.
- Resultado reportado: redução média de 40% nos custos de aplicação de herbicidas via tecnologia de taxa variável.
Reconhecimento global antes da Forbes
O selo da Forbes (divulgado em 15 de outubro, alusivo ao Dia Internacional da Mulher Rural) é a segunda edição do prêmio — a primeira foi em 2021. Mas Nathália já havia brilhado fora do Brasil. Em setembro de 2025, venceu a categoria tecnologia agrícola no Global Women in Agritech, na Bélgica.
Foi a única brasileira entre 23 finalistas. No evento, defendeu que sustentabilidade no campo só avança se caminhar junto com viabilidade econômica para o produtor — tese que ecoa na tese de investimento de sua gestora.
Formação híbrida como diferencial competitivo
Além do diploma em Música e do MBA em Gestão Empresarial pela FGV, Nathália carrega certificação em Venture Capital pela UC Berkeley. Essa combinação — sensibilidade artística, rigor técnico e fluência em capital de risco — explica a capacidade de traduzir linguagem de startup para a realidade do talhão.
Ela resume a filosofia em uma frase: “Existem períodos difíceis que nos tornam mais fortes. A vida nos guia de forma nem sempre esperada.”
O que observar daqui para frente
A próxima safra de inovação no Centro-Oeste deve passar pelo funil do Orchestra. Com o fundo maduro e a rede de validação em campo estabelecida, a tendência é que novas rodadas de investimento atraiam ticket maior — possivelmente fundos institucionais e corporates do agro. Para quem acompanha o setor, o sinal está dado: a fronteira entre arte, ciência e negócio no campo está mais fluida do que parece.
