El Salvador devolveu ao dólar o monopólio de moeda oficial e tornou o uso de Bitcoin facultativo, encerrando de forma silenciosa o experimento mais ousado de adoção cripto por um Estado-nação. A promessa de prosperidade via “títulos vulcão” e uma cidade mineradora alimentada por energia geotérmica nunca saiu do papel. O que restou foi uma reserva estatal de 7.798 bitcoins — hoje avaliada em US$ 636 milhões — e lições caras sobre imposição tecnológica.
Cinco anos após a lei que colocou a criptomoeda ao lado do dólar, o balanço é de adesão residual: 91,8% dos salvadorenhos não usaram Bitcoin em 2024, e apenas 0,7% das remessas — motor de 26% do PIB — passaram por carteiras digitais. O governo, pressionado pelo FMI, vendeu o controle da carteira Chivo a uma empresa privada e paralisou compras com dinheiro público.
Como a aposta começou: bônus de US$ 30 e um fundo de US$ 150 milhões
Em junho de 2021, a Assembleia Legislativa — controlada pelo partido Novas Ideias — aprovou a Lei Bitcoin. O pacote incluía um fundo fiduciário de US$ 150 milhões, US$ 30 de incentivo para quem baixasse a carteira Chivo e US$ 50 milhões em caixas eletrônicos e infraestrutura. A narrativa oficial prometia três pilares: redução no custo de remessas, inclusão bancária da população informal e atração de investimento externo.
O presidente Nayib Bukele celebrou a medida como um ato de soberania financeira. “Enquanto o mundo mergulha na tirania, vamos criar um refúgio de liberdade”, discursou. A retórica ecoou setores anarcocapitalistas dos EUA, que viam no Bitcoin uma forma de enfraquecer bancos centrais.
Mas a população não embarcou. Nove meses após o lançamento, pesquisa do Iudop/UCA mostrou que 71% dos entrevistados não viam benefício econômico. O NBER (EUA) confirmou: a maioria abandonou a Chivo após gastar o bônus governamental.
Remessas: o diagnóstico errado que custou caro
O argumento central — baratear o envio de dinheiro do exterior — ignorava a realidade operacional. “O que encarece a remessa é o envio e o recebimento em espécie nos EUA”, explica Frank Muci, pesquisador da London School of Economics. Entre janeiro e abril de 2026, canais cripto moveram US$ 23,1 milhões — alta de 44,3% ano a ano, mas ínfimos frente aos US$ 3,286 bilhões totais.
O turismo, outro pilar prometido, também não decolou via cripto. Muci classifica o projeto como nothing burger: “Centenas de manchetes, zero resultado macroeconômico”. O boom turístico real veio da “guerra às gangues”, que derrubou homicídios e reelegeu Bukele com 90% dos votos em 2024.
Títulos vulcão e Bitcoin City: a arquitetura que não existiu
A Lei de Emissão de Ativos Digitais (jan/2023) deveria viabilizar os “títulos vulcão”: dívida lastreada em Bitcoin para financiar metade a compra de mais cripto e metade a Bitcoin City, planejada aos pés do vulcão Conchagua. A energia geotérmica alimentaria a mineração. Nenhum título foi emitido. A cidade não tem fundação.
Samson Mow, da JAN3 (parceira técnica), admite o fracasso operacional, mas destaca o legado regulatório: “Criamos um setor regulamentado, próspero e sólido”. Ele mantém a tese de adoção orgânica: “O Bitcoin não precisa de lei que obrigue uso. É a melhor forma de dinheiro já conhecida.”
A pressão do FMI e o desmonte silencioso
Em dezembro de 2024, El Salvador fechou empréstimo de US$ 1,4 bilhão com o Fundo Monetário Internacional. A contrapartida: “reduzir riscos associados ao Bitcoin”. Em janeiro de 2025, a Assembleia revogou três artigos e alterou seis da Lei Bitcoin. Curso legal? Acabou. Aceitação obrigatória? Voluntária.
Em setembro, o governo transferiu o controle majoritário da Chivo à Linguard Labs, empresa privada. Bukele esclareceu no X: “Só ações da Chivo, não a reserva estratégica”. O Estado permanece sócio. O relançamento promete transferências gratuitas dos EUA, microcrédito e multiativos.
O FMI liberou mais US$ 138 milhões em outubro, mas cobrou: compras estatais de Bitcoin suspensas. O governo seguiu comprando — agora alegando “doações privadas”. Quem doou? Quanto? A Presidência e o FMI não responderam à BBC.
O balanço patrimonial: prejuízo contido, credibilidade abalada
Carlos Acevedo, ex-presidente do Banco Central de Reserva, resume: “Não houve perda de dinheiro”. A reserva de 7.798 BTC (US$ 636 mi em 8/10) rendeu próximo do mercado tradicional. Mas o custo de oportunidade — US$ 200 milhões em implementação — e o sinal de instabilidade para investidores pesam.
Mow reconhece: “Mesmo com poder concentrado, não se obriga população a adotar moeda”. A lição vale para qualquer governo: infraestrutura e educação precedem decreto.
O que observar daqui para frente
A parceria Chivo-Linguard Labs é o teste real: uma carteira estatal privatizada, mas com dinheiro público na reserva, operando serviços financeiros (crédito, câmbio, pagamentos) sob regulação flexível. Se funcionar, vira caso de estudo de public-private partnership em ativos digitais. Se falhar, enterra de vez a narrativa de “país do Bitcoin”.
Enquanto isso, a reserva de 7.798 BTC segue no balanço do Escritório Nacional do Bitcoin — volátil, auditável em tempo real, e única herança concreta de uma aposta que custou caro, ensinou muito e mudou pouco o bolso do salvadorenho médio.
