Economia

O segredo que ninguém conta: o ‘Posto Ipiranga’ de Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro, Adolfo Sachsida e Daniella Marques em reunião de transição econômica
Equipe econômica de Flávio Bolsonaro se reúne em sigilo para planejar futuro governo

Um grupo seleto de ex-assessores de Paulo Guedes já desenha as primeiras medidas econômicas de um eventual governo Flávio Bolsonaro. A operação ocorre nos bastidores, sem anúncio oficial do futuro ministro da Fazenda.

Essa silêncio estratégico intriga o mercado: afinal, quem realmente segura a caneta da economia?

A dobradinha que comanda a transição

O ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida coordena os encontros técnicos semanais, realizados por videoconferência entre Brasília, São Paulo e Curitiba. Ao lado dele, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, assumiu a articulação política e o diálogo direto com o empresariado.

Enquanto Sachsida gerencia a “engenharia” das propostas, Daniella virou o rosto visível da campanha na busca pelo voto feminino. A divisão de trabalho é clara: técnica de um lado, política do outro.

Os nomes por trás das planilhas

A equipe é formada por quadros que ocuparam postos-chave no antigo Ministério da Economia:

  • Anne Marciquevik: especialista em direito tributário;
  • Myrian Prado: foco em desestatização e infraestrutura;
  • Alexandre Messa: ex-secretário de Acompanhamento Econômico;
  • Alexandre Ywata: ex-subsecretário de Direito Econômico e ex-Caixa Participações;
  • Vladimir Kühl Teles: ex-secretário-adjunto de Política Econômica, braço direito de Sachsida na SPE.

O que está na mesa: cortes, tributos e o Congresso

As discussões giram em torno de três eixos: contenção de despesa, arrecadação e a trajetória da dívida/PIB. O grupo já separa o que pode ser feito por decreto do que exige votação no Legislativo.

Temas que dependem de deputados e senadores ficarão para depois do segundo turno, sob a batuta do senador Rogério Marinho (PL-RN), articulador-chefe da campanha e cotado para a Casa Civil.

O abismo entre a meta de R$ 200 bi e a realidade do Orçamento

Daniella Marques defende publicamente um corte de 1,5% do PIB (cerca de R$ 200 bilhões), prometendo que virá da eliminação de “ineficiências e regalias”. Especialistas em contas públicas veem ceticismo.

O motivo é aritmético: no Orçamento de 2026, 92% das despesas primárias são obrigatórias. O espaço discricionário — onde se cortam sem mudar lei — é de apenas 8%. Não há como atingir o alvo sem mexer em benefícios previdenciários ou no salário mínimo.

A resposta da campanha e o fantasma de 2018

Após ataques do PT alegando fim do reajuste real do mínimo e desvinculação da Previdência, Flávio Bolsonaro reagiu: garantiu aumento real para aposentadorias e manteve a regra do BPC atrelada ao piso. Sachsida reforçou: programas sociais serão fortalecidos e não há plano para privatizar Petrobras ou Banco do Brasil.

Diferente de 2018, quando Jair Bolsonaro já tinha Guedes como “Posto Ipiranga”, Flávio chega ao segundo turno sem ministro da Fazenda definido. Dirigentes do PL ouvidos pela reportagem dizem que a reação positiva do mercado — Ibovespa em alta, dólar e juros futuros em queda — tirou a urgência do anúncio.

Três nomes para uma cadeira

O mercado aposta em três perfis distinctos para o Ministério da Fazenda:

  • Roberto Campos Neto: ex-presidente do BC, hoje no Nubank, tem apoio de Tarcísio de Freitas;
  • Marcelo Kayath: sócio da QMS Capital, ex-Credit Suisse, respaldado por Eduardo Bolsonaro;
  • Mansueto Almeida: economista-chefe do BTG, ex-Tesouro (Temer/Bolsonaro), o preferido do mercado financeiro, mas com menos trânsito no PL.

O que observar daqui para frente

Daniella Marques deve assumir uma “superpasta” social, conforme sinalizou o próprio candidato. Sachsida é cotado para Infraestrutura. A definição do ministro da Fazenda — e o detalhamento de como fechar a conta dos R$ 200 bilhões sem ferir despesas obrigatórias — será o teste real de credibilidade fiscal do projeto. Até lá, o mercado opera na expectativa, não na certeza.