O Tesouro dos EUA aplicou uma multa histórica de US$ 1,2 bilhão ao Bank of America por falhas graves e recorrentes no combate à lavagem de dinheiro. O banco deixou de reportar mais de US$ 5 bilhões em transações suspeitas, muitas ligadas a redes chinesas e à fronteira sul. Mas o valor da punição esconde um detalhe que pode mudar as regras do jogo para todo o setor financeiro.
O fato que ninguém esperava ver tão cedo
A penalidade totaliza US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões), dividida entre a FinCEN (Rede de Combate a Crimes Financeiros) e o OCC (Escritório do Controlador da Moeda). Só a multa civil do OCC, de US$ 750 milhões, entra para a história como a maior já aplicada pelo órgão. O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) adicionou outros US$ 11,6 milhões por violações de sanções ao Irã, Rússia e programas de narcotráfico.
O anúncio caiu como uma bomba às vésperas do balanço do terceiro trimestre, marcado para esta quarta-feira. O banco processa centenas de trilhões de dólares em pagamentos anualmente, o que amplia a gravidade das falhas sistêmicas apontadas.
Onde estavam os buracos na fiscalização
Segundo o relatório oficial, mais de 20% das transações não reportadas — algo acima de US$ 1 bilhão — envolviam áreas classificadas como prioridade de segurança nacional. Dois vetores chamaram a atenção dos reguladores:
- Redes chinesas de lavagem: Indícios de estruturas sofisticadas movimentando capital ilícito através do sistema bancário americano.
- Comércio na fronteira sudoeste: Operações de “trade-based money laundering” com vínculo direto com cartéis e rotas de narcóticos.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, foi direto: quando uma instituição desse porte falha, o risco transborda para todo o sistema financeiro dos EUA.
A raiz do problema: gente sem preparo e gestão omissa
A investigação do OCC revelou que a falha não era apenas tecnológica. Funcionários-chave da área de compliance não possuíam competências técnicas nem treinamento adequado para operar o programa de prevenção. O resultado: relatórios de atividades suspeitas (SARs) enviados com atraso e dados imprecisos.
Pior: a administração do banco teria minimizado as “deficiências significativas” mesmo após a ordem de cessação e desistência de dezembro de 2024, que exigia a correção imediata do programa de BSA (Lei de Sigilo Bancário).
O efeito cascata que já atingiu a concorrência
Essa não é uma ação isolada. Na semana passada, a American Express foi multada em US$ 350 milhões por falhas que permitiram a passagem de US$ 13 bilhões em atividades suspeitas por mais de uma década. O recado é claro: a tolerância regulatória chegou a zero, especialmente em rotas ligadas à China e América Latina.
Para o Bank of America, a punição inclui a obrigação de contratar um monitor externo independente para caçar transações suspeitas que passaram despercebidas. O custo operacional dessa “limpeza” deve superar o valor da multa nos próximos trimestres.
O que observar daqui para frente
O mercado deve monitorar três frentes nas próximas semanas: a divulgação do balanço do 3T24 e o impacto contábil das provisões; a reação do presidente Brian Moynihan, que já sofre pressão política direta da Casa Branca; e a eventual endurecimento das exigências de Know Your Customer (KYC) para bancos globais que operam no corredor EUA-Ásia-América Latina. Quem não reforçar a governança de compliance agora, provavelmente será o próximo na lista.
