Tecnologia

O segredo de 1984: como café virou capital tech no interior paulista…

Vista aérea de São Carlos com prédios tecnológicos e áreas verdes, representando a Capital Nacional da Tecnologia desde 1984
São Carlos, interior paulista, consolidada como polo tecnológico nacional a partir de marcos históricos de 1984.

São Carlos carrega o título oficial de Capital Nacional da Tecnologia, mas o caminho até lá não foi acaso. Tudo girou em torno de um ano específico que plantou as sementes do ecossistema atual.

O que aconteceu em 1984 explica por que a cidade atrai hoje investidores, pesquisadores e empresas de base tecnológica. A resposta envolve uma incubadora pioneira e um centro da Embrapa — mas o pano de fundo vem de décadas antes.

O ano que dividiu a história

Em 1984, duas estruturas nasceram quase juntas: a primeira incubadora de empresas de base tecnológica do país, ligada à Fundação Parque de Alta Tecnologia (ParqTec), e a Embrapa Instrumentação, voltada a desenvolver equipamentos para o agronegócio. As startups incubadas ganhavam infraestrutura — telefone, internet, energia, laboratórios — por até seis anos até se formarem para o mercado.

O vizinho de laboratório virou método. A Embrapa Instrumentação passou a orientar teses e dissertações em parceria com os programas de pós-graduação da USP e da UFSCar. Empresas, universidade e pesquisa deixaram de ser ilhas e viraram engrenagem única.

De lavouras a laboratórios: a raiz do campus

A cidade nasceu em torno da Fazenda do Pinhal, motor da expansão cafeeira no século XIX. A virada científica começou cem anos depois, quando a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) abriu suas duas primeiras turmas em 1953. Dali nasceriam, décadas depois, os institutos de Física e Química que hoje compõem o campus.

A UFSCar chegou em 1968, primeira federal no interior paulista, a 228 km da capital. O campus de 645 hectares foi erguido sobre a antiga Fazenda Trancham. O sino que marcava o ritmo do trabalho no campo passou a anunciar aulas para 96 alunos iniciais em 1970. O símbolo permanece: o sino original ainda está lá.

Densidade de doutores: o número que chama atenção do mercado

São mais de 2.530 doutores em uma população de cerca de 250 mil habitantes. A proporção — um para cada 100 moradores — é quase dez vezes a média brasileira (um para 950). Em 2012, a razão era de um para 135. Em sete anos, a cidade ficou ainda mais densa em pesquisadores.

O levantamento do professor Hamilton Varela (IQSC/USP) cruzou dados da USP, UFSCar, IFSP, duas unidades da Embrapa, Unicep e ParqTec. Para quem busca talento técnico, o recado é direto: a concentração de capital humano qualificado aqui é atípica para o padrão nacional.

USP São Carlos em números (2023)

  • 10.287 alunos — soma de graduação, pós, especiais, pós-doutorandos e colaboradores
  • 23 cursos de graduação — 4.822 estudantes, 1.010 vagas no vestibular (eng. aeronáutica a ciência de dados)
  • 4.507 pós-graduandos — mestrado, doutorado, MBA e especializações
  • 523 docentes — distribuídos em cinco unidades: EESC, IAU, ICMC, IFSC, IQSC
  • 12.063 pessoas — população total do campus (alunos, professores, servidores, terceirizados)

O campus funciona como uma cidade dentro da cidade, com fluxo próprio de inovação e demanda por serviços, moradia e tecnologia.

Quando o apelido virou lei

Em 11 de outubro de 2011, a Lei nº 12.504 sancionada pela então presidente Dilma Rousseff conferiu o título de Capital Nacional da Tecnologia ao município. Dois artigos apenas: um concede o título, o outro define a vigência. A brevidade contrasta com quase seis décadas de construção — salas de aula, laboratórios e empresas nascidas nos campi.

O que observar daqui para frente

A transição de cafezais para laboratórios não terminou. A combinação de universidade densa, pesquisa aplicada (Embrapa) e estrutura de incubação cria ciclos de spin-offs que tendem a acelerar. Para investidores e gestores de inovação, o termômetro está na taxa de graduação das incubadas e no volume de patentes depositadas em parceria USP-UFSCar-Embrapa. Quem monitora esses indicadores antecipa onde o próximo polo de deep tech vai surgir no interior paulista.