Economia

O efeito Milei: por que novos aposentados caíram 53% na Argentina e o que isso sinaliza

Javier Milei discursa com gráfico mostrando queda de 53% em novas aposentadorias na Argentina
O fim da moratória previdenciária reduziu novos aposentados pela metade no primeiro semestre de 2026.

O número de argentinos que conseguiram se aposentar no primeiro semestre de 2026 despencou pela metade em relação ao mesmo período de 2024. A queda de 53% — de 213,9 mil para 99,6 mil novos beneficiários — expõe o impacto direto do fim da moratória previdenciária, medida que deixou de ser renovada em março de 2025. O dado, divulgado nos Boletins Estatísticos da Previdência Social (BESS), revela a primeira consequência visível do ajuste fiscal implementado pelo governo Javier Milei.

O que mudou na porta de entrada da Previdência

Até 2025, trabalhadores que atingiam a idade mínima (60 anos para mulheres, 65 para homens) mas não completavam os 30 anos de contribuição podiam regularizar o período faltante por meio da moratória. Era uma ponte para a aposentadoria de milhões de informais e trabalhadores com trajetórias interrompidas. Com o fim do mecanismo, o acesso ao benefício ficou restrito a quem já cumpria todos os requisitos formais.

O efeito imediato foi a redução drástica no fluxo de novos ingressos. Mas a porta de entrada não foi o único ponto alterado.

Fórmula de reajuste: inflação apenas, sem ganho real

Em março de 2024, o Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) 274 alterou a regra de atualização dos benefícios. A fórmula anterior (Lei 27.609/2021) combinava 50% da variação salarial e 50% da arrecadação previdenciária. O novo modelo atrela os reajustes mensais exclusivamente ao índice oficial de inflação.

Segundo o Centro de Economia Política Argentina (Cepa), a mudança fez o piso mínimo das aposentadorias deixar de crescer 21% até junho de 2026. Na prática: com a regra de Milei, o benefício mínimo (sem bônus) chegou a $403.327 pesos. Se a fórmula antiga vigorasse, seria $490.621 — diferença de 21,6%.

O poder de compra já vinha erodindo antes

O advogado previdenciário Luciano González Etkin, do Centro de Aposentados da ATE Nacional, contextualiza: as aposentadorias argentinas perdiam poder aquisitivo desde pelo menos 2018. “Ao suspender a fórmula que proporcionava algum crescimento real, o governo consolida a perda e condena os benefícios a permanecer nesse patamar”, afirma.

Em outubro de 2026, após reajuste de 1,66%, o valor mínimo com bônus fixo de 70 mil pesos atingiu $505.748,51 — aproximadamente R$ 1.662 na cotação atual. A organização Espaço Gerontovida estima que isso cobre apenas 25% das necessidades básicas mensais de um idoso, calculadas em $2.090.646.

Medicamentos e o corte no PAMI

Outra frente de ajuste atingiu o Instituto Nacional de Serviços Sociais para Aposentados e Pensionistas (PAMI). Desde dezembro de 2024, a gratuidade em medicamentos passou a ser restrita a quem recebe até 1,5 vez o benefício mínimo. Antes, o alcance era mais amplo. A medida empurrou parte dos aposentados para o pagamento parcial ou integral de tratamentos.

O resultado, segundo Etkin, são protestos semanais em Buenos Aires. “Vivem com cerca de 30% do necessário para um padrão mínimo de dignidade. É uma situação muito preocupante e desumana”, relata.

Congresso tenta, presidente veta

Sob pressão, o Congresso aprovou três projetos para melhorar os valores — um em 2024, dois em 2025. Um deles previa piso de 1,09 vez a cesta básica de um adulto. Todos foram vetados integralmente por Milei, sob alegação de inexistência de recursos orçamentários.

O espelho brasileiro: inspiração declarada

O modelo argentino entrou no radar eleitoral brasileiro. A economista Daniella Marques, coordenadora da equipe econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), declarou em setembro de 2026 que o governo Milei é “ótimo exemplo” e inspiração para o “tesouraço” proposto. A desindexação das aposentadorias do salário mínimo — hoje com ganho real de até 2,5% acima da inflação — é uma das demandas do mercado para conter despesas no Brasil.

Enquanto Lula (PT) cobra detalhamento dos cortes, o senador do PL nega que o ajuste recairá sobre aposentadorias ou programas sociais. A disputa sobre o alcance real da proposta segue aberta.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão o cenário argentino nos próximos trimestres: a sustentação do veto presidencial diante da pressão social, a evolução da inflação (que dita o reajuste único atual) e a eventual judicialização em torno do fim da moratória. No Brasil, a tramitação de eventuais propostas de desindexação ou reforma da previdência complementar exigirá atenção ao impacto distributivo — o caso argentino mostra que a conta costuma chegar primeiro a quem tem menos margem de manobra.

  • Novos aposentados (H1 2024 vs H1 2026): -53% (213,9 mil → 99,6 mil)
  • Perda de crescimento real do piso (Cepa, jun/2026): 21,6%
  • Cobertura de necessidades básicas (Gerontovida): ~25%
  • Fim da moratória: março de 2025
  • Nova fórmula de reajuste (DNU 274): março de 2024