A inteligência artificial deixou de ser promessa de futuro e virou variável decisiva no cálculo de prêmios. Para a Sompo Seguros, o perigo não está na tecnologia em si, mas no vazio de informação sobre como cada cliente a aplica no dia a dia. Essa lacuna está reescrevendo regras de apólices que pareciam imutáveis.
O arquiteto, a IA e o buraco na cobertura
Imagine um escritório de arquitetura que troca a prancheta por um modelo generativo. O seguro de erros e omissões (E&O) continua o mesmo, mas o risco — não. “Quão bem treinada foi essa IA? Como ela opera? São esses os aspectos que queremos compreender”, resume Alessa Quane, CEO de International Markets da Sompo.
A seguradora comprou a Fator Seguradora em julho justamente para ganhar musculatura nesse nicho. O diagnóstico é binário: a automação pode aumentar a exposição se o sistema alucinar decisões críticas, ou reduzi-la se eliminar falhas humanas repetitivas após testes rigorosos. Não há meio-termo.
Data centers: o novo “petróleo” do patrimonial
Enquanto o debate foca em algoritmos, a infraestrutura física silenciosamente explode. Os data centers que alimentam a IA demandam coberturas patrimoniais na casa das dezenas de bilhões de dólares — valor que nenhuma seguradora absorve sozinha.
A complexidade espelha a de uma plataforma de petróleo: múltiplos contratados, camadas de responsabilidade cruzada e interdependência crítica. Um incêndio ou falha de refrigeração não derruba apenas servidores; paralisa cadeias inteiras de valor.
O sinistro que superou furacões e incêndios
Em 2025, o maior prejuízo do setor não veio do clima. A falha no software da CrowdStrike travou milhões de máquinas Windows mundo afora: aeroportos parados, emergências 911 mudas, logística congelada. O impacto financeiro ultrapassou o dos incêndios californianos que consumiram mansões em Los Angeles — áreas de altíssimo valor segurado e densidade populacional.
No Brasil, a Sompo sentiu dois golpes climáticos em 2024: a submersão total de uma fábrica de precisão no Rio Grande do Sul e a seca amazônica que encalhou embarcações carregadas, exigindo resgate por caminhão quando o nível dos rios baixou.
Guerra no Estreito de Ormuz: a cláusula dos 15 dias
O risco geopolítico tem preço tabelado. No seguro marítimo de guerra, vigora a regra: ao eclodir o conflito, o navio tem 15 dias de cobertura automática para deixar a zona de perigo. Após o prazo, a apólice caduca.
Quando janelas curtas de travessia foram autorizadas, a Sompo aceitou risco seletivo: bandeiras neutras, evitando embarcações americanas, iranianas ou israelenses. O prêmio da apólice de guerra marítima disparou — e quem não tem apólice específica, navega por conta própria.
O que o empresário deve monitorar daqui para frente
- Revisão de E&O: se sua operação adotou IA generativa ou preditiva, a apólice atual pode não refletir o novo perfil de erro.
- Due diligence de fornecedores: data centers e provedores de nuvem tornaram-se elos críticos — peça certificados de resiliência e seguros próprios.
- Cenários de “cisne negro” tecnológico: o caso CrowdStrike provou que uma única atualização defeituosa supera catástrofes naturais em escala financeira.
- Rotas marítimas sensíveis: verifique se sua apólice de carga inclui cláusula de guerra e qual o prazo de tolerância em zonas de tensão.
A Sompo encerrou 2023 vendendo sua carteira de varejo (auto, residencial, vida) à HDI para focar 100% em corporativo e agronegócio. Com 52 mil clientes, 670 funcionários e lucro de R$ 54 milhões no primeiro semestre, a mensagem é clara: o risco mudou de natureza — e quem não atualizar o contrato paga a diferença no sinistro.
