Economia

Aena assume Galeão: Saída da Infraero e o segredo da outorga variável

Aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro com logo da Aena e avião decolando
Aena assume controle total do Galeão em contrato inédito com outorga variável

A espanhola Aena formalizou, nesta terça-feira (6), a compra do controle total do Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. A estatal Infraero deixa o negócio após anos de participação minoritária. O novo contrato traz uma regra de pagamento inédita para terminais relicitados no país.

O mapa da nova operação: 18 terminais e 63 milhões de passageiros

Com a assinatura, a concessionária passa a administrar 18 aeroportos brasileiros. Juntos, eles movimentam mais de 63 milhões de passageiros por ano.

A mudança encerra a sociedade que dividia o Galeão: a Infraero detinha 49%, enquanto Changi e Vinci compunham os 51% restantes. Agora, a gestão é 100% privada.

Por que o modelo de “venda assistida” muda a conta final

O desenho do contrato foi feito pelo TCU para resolver um ativo “estressado” — concessões antigas que fracassaram e precisaram de revisão. A grande novidade está no bolso da União.

Em vez de parcelas fixas, a Aena repassará 20% do faturamento bruto anual até 2039, fim da concessão. Diferente do que ocorreu em São Gonçalo do Amarante (RN), onde a Zurich Airport pagou R$ 320 milhões de outorga fixa mais taxa variável a partir do quinto ano, aqui não há entrada garantida.

Outro alívio para a concessionária: a obrigação de construir uma terceira pista foi retirada do escopo.

Os bastidores do leilão: lance de R$ 2,9 bi decidiu na “viva-voz”

A disputa de março foi acirrada. Veja como ficaram os números finais:

  • Lance mínimo: R$ 932 milhões
  • Proposta vencedora (Aena): R$ 2,9 bilhões
  • Empate técnico na fase escrita: Aena e Zurich ofertaram R$ 1,5 bilhão (ágio de 60,8%)
  • RIOgaleão (consórcio Changi/Vinci): R$ 934 milhões (ágio de 0,13%)

A definição saiu na etapa de viva-voz, quando as concorrentes elevam os lances oralmente até restar uma única proponente.

Foco da gestão: eficiência, carga e a integração com Congonhas

A Aena opera no Brasil desde 2020, administrando Congonhas (SP), Campo Grande, Maceió e Aracaju. No comunicado oficial, a empresa listou quatro pilares para o Galeão:

  • Eficiência operacional
  • Experiência do passageiro
  • Fortalecimento do transporte de cargas
  • Geração de valor para o Rio de Janeiro

O terminal carioca tem capacidade ociosa significativa no setor de cargas, um ativo que a espanhola conhece bem: a matriz gere 46 aeroportos na Espanha, 51% de Londres-Luton, 12 terminais no México e dois na Jamaica.

O que observar daqui para frente

A aposta na outorga variável alinha o interesse da concessionária ao crescimento da receita, mas transfere risco cambial e de demanda para o poder concedente. Se o Galeão não voltar a atrair voos internacionais e de carga em volume, a arrecadação da União encolhe.

Para o mercado, o termômetro será a velocidade na recuperação da malha aérea e a capacidade da Aena de integrar a gestão do Galeão com a de Congonhas, criando sinergias na ponte aérea mais movimentada do país. O primeiro balanço operacional sob nova gestão será o termômetro real dessa transição.