As abelhas sustentam cerca de 30% da renda agrícola nacional, mas morrem em escala industrial. Entender o tamanho do prejuízo — e quem paga a conta — exige olhar além do mel.
Não é exagero: sem esses insetos, a soja rende 18% a menos e o maracujá vira artigo de luxo. Os números estão na mesa; a solução, não.
O serviço invisível que move bilhões
Cerca de 60% das 141 culturas alimentares cultivadas no Brasil dependem, em algum grau, de polinizadores. A conta da FAO é global: 87 dos 115 principais alimentos do mundo precisam desse serviço. No país, a contribuição econômica direta beira US$ 12 bilhões por ano, segundo estudo liderado por Tereza Cristina Giannini.
Em São Paulo, pesquisadores do BIOTA Síntese cravaram: eliminar o déficit de polinização injetaria R$ 4,2 bilhões anuais na economia estadual. O segredo não é tecnologia cara, mas vegetação nativa nas bordas das lavouras.
A conta das mortes em números absolutos
Desde 2013, a plataforma Bee Alert registra o rastro de destruição. Os episódios mais recentes assustam pela magnitude:
- 2018: 400 milhões de abelhas mortas no Rio Grande do Sul.
- 2023: 100 milhões de perdas no Mato Grosso.
- 2024: 9 milhões de vítimas em Goiás.
A causa principal é conhecida: aplicação inadequada de inseticidas, sobretudo neonicotinoides e fipronil. Pesquisa da Embrapa de 2004 já mostrava que 19% do veneno pulverizado por avião escapa da área-alvo.
O veneno e a lei: um cabo de guerra
O Ibama reavalia há mais de uma década defensivos à base de fipronil e neonicotinoides. Em 2024, o TRF3 determinou que o Ministério da Agricultura aplique as restrições já definidas para imidacloprido, clotianidina e tiametoxam, além de fixar prazo para concluir a análise do fipronil. A pulverização aérea dos quatro produtos segue proibida por decisão judicial.
Enquanto a burocracia arrasta, o campo sangra. No Pampa gaúcho, porém, um experimento da BASF — gigante do setor químico — mostrou que soja e apicultura convivem: 23 apicultores colheram 36 toneladas de mel na safra 2025/26, alta de 44%, e agricultores relataram ganhos de produtividade.
Além do agrotóxico: o cerco se fecha
A perda de habitat força as abelhas a voar quilômetros na entressafra. Monoculturas oferecem banquete temporário e depois deserto verde. Mudanças climáticas antecipam florações, criando um descompasso letal: a flor abre, a abelha não chega.
Modelagem global para 2070 (cenário SSP5-8.5) projeta que 65% das 1.365 espécies analisadas perderão áreas climaticamente favoráveis. A lista de ameaças emergentes, publicada em 2025 pela Bee:wild, soma 12 itens: microplásticos, luz artificial, mineração de lítio, plantios de carbono mal planejados e “coquetéis” de pesticidas.
Onde a conservação vira negócio
O Programa Abelhas Nativas da Fundação Florestal (SP) protege 32 espécies sem ferrão em 25 Unidades de Conservação — 51% do total estadual. São 192 caixas racionais, 30 meliponários educativos e 61 famílias gerando renda com mel e própolis no PSA Juçara. A meta: 3.400 colônias até 2030.
No litoral sul paulista, estudo de 2026 na revista Hoehnea revelou que bromélias nativas (gêneros Aechmea e Quesnelia) são a base alimentar das abelhas em restingas. Conservar a vegetação original não é romantismo; é garantir o estoque de polinizadores.
O que observar daqui para frente
Três frentes ditam o ritmo dos próximos anos: o cumprimento das restrições judiciais aos neonicotinoides e fipronil; a expansão de corredores de vegetação nativa entre lavouras (o “seguro” mais barato contra déficit de polinização); e a integração de dados do Bee Alert com políticas estaduais de zoneamento agrícola. Quem ignorar a equação — polinizador vivo = receita maior — continuará pagando a diferença no prejuízo silencioso das colmeias vazias.
