O diesel S-10 nos postos atingiu R$ 7,35 por litro na última semana, maior patamar desde abril, impulsionado por uma alta de 7% em apenas 30 dias. A conta chegou ao bolso do transportador, mas a origem do problema está longe das refinarias nacionais.
A dependência do mercado externo nunca foi tão perigosa. Entenda por que o cenário para novembro assusta até os maiores importadores.
A anatomia de uma alta de 7% em 30 dias
Segundo a ANP, o litro subiu R$ 0,47 entre a primeira semana de setembro e a primeira de outubro. Não foi movimento isolado: o custo de importação acompanhou a escalada, avançando 7% no mesmo período, segundo estimativas da StoneX e Abicom.
Na abertura desta segunda-feira (5), a paridade de importação no porto de Paulínia já marcava R$ 6,70 por litro. Ou seja: o produto chega ao terminal quase no preço final da bomba.
Quatro semanas consecutivas de alta. O gatilho inicial veio do Oriente Médio, mas o susto real tem endereço certo: Washington.
Por que os EUA ditam o preço do seu frete
O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome. Desde o fechamento de refinarias no Oriente Médio e as sanções à Rússia, os Estados Unidos viraram o “supermercado” global do combustível.
Em outubro, 80% das compras brasileiras vieram de refinarias americanas. Essa concentração cria um risco sistêmico: qualquer espirro na política externa de lá vira pneumonia logística aqui.
- Estoque global: em níveis criticamente baixos, segundo a Abicom.
- Paridade Paulínia: R$ 6,70/litro (abertura de 05/10).
- Dependência externa: 30% do consumo nacional.
- Origem dominante: 80% das importações vêm dos EUA.
O efeito Trump: ameaça real ou blefe eleitoral?
O presidente americano ameaçou interromper as exportações de combustíveis. Para Sergio Araújo, presidente da Abicom, não é retórica vazia: “Se os Estados Unidos realmente proibirem a exportação, novembro vai ser preocupante”.
O mercado opera com estoques justos. Sem o fluxo americano, não há capacidade ociosa instantânea no resto do mundo para suprir a lacuna. O resultado seria racionamento de fato ou explosão de preços.
Petrobras e Acelen: a dança dos subsídios
Enquanto o importador privado repassa a alta integral, as duas grandes produtoras domésticas seguem outra coreografia. A Petrobras subiu o preço nas refinarias há duas semanas, mas o aumento foi neutralizado por um novo subsídio federal de R$ 1,00 por litro.
A Acelen, dona da refinaria de Mataripe (BA), aplicou dois reajustes sequenciais — R$ 0,50 em setembro e mais R$ 0,50 no início de outubro. Soma exata: R$ 1,00 por litro, valor idêntico ao benefício criado pelo governo.
No total, a União injeta hoje R$ 2,12 por litro (R$ 1,00 novo + R$ 1,12 anterior). A conta já passa de R$ 15,4 bilhões só em 2024, dos quais R$ 13 bilhões foram para o caixa da Petrobras.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem se o diesel segue subindo ou estabiliza nas próximas semanas: a materialização (ou não) do bloqueio exportador americano, o nível dos estoques globais nas próximas divulgações da AIE e o câmbio — hoje o único amortecedor parcialmente controlável.
Para o empresário do transporte ou logística, a recomendação técnica permanece: travar contratos de fornecimento com cláusulas de revisão quinzenais e monitorar a paridade de Paulínia como termômetro antecipado. O novembro prometido pela Abicom começa a ser precificado agora.
