O mercado automotivo brasileiro quebrou a barreira das 500 mil unidades em um único mês pela primeira vez na história. Foram 509.686 veículos emplacados em setembro, uma alta de 8,32% contra o mesmo período de 2025 e 1,15% acima de agosto. Mas o que explica esse fôlego extra com o crédito ainda caro?
Automóveis e comerciais leves puxam a fila
O segmento de carros de passeio e utilitários leves foi o grande motor do resultado. Na comparação anual, o salto foi de 16,16%, enquanto o mês a mês mostrou expansão de 2,13%. Segundo a Fenabrave, a guerra de preços entre montadoras e os programas federais Move Brasil e Carro Sustentável mantêm o consumidor ativo nas concessionárias.
O presidente da entidade, Arcelio Junior, resume: a demanda por zero-quilômetro resiste mesmo em cenário de juros elevados. A competição por participação de mercado força condições comerciais agressivas que compensam, em parte, o custo do financiamento.
Caminhões e ônibus: o efeito Move Brasil
Após meses de trajetória descendente, os pesados deram sinal de vida. Caminhões cresceram 2,51% sobre agosto e 2,65% sobre setembro do ano passado. Ônibus surpreenderam com altas de 12,09% e 18,43%, respectivamente.
O programa Move, focado na renovação de frota, “estancou a sangria”, nas palavras da federação. As linhas de crédito especiais se esgotaram rápido, provando que o empresário do transporte quer investir — desde que o custo financeiro caiba no frete.
No acumulado do ano, porém, caminhões ainda acumulam queda de 3,89%. A virada mensal é bem-vinda, mas o ano ainda fecha no vermelho para o segmento.
Desempenho por segmento em setembro
- Autos e comerciais leves: +16,16% (anual) | +2,13% (mensal)
- Caminhões: +2,65% (anual) | +2,51% (mensal)
- Ônibus: +18,43% (anual) | +12,09% (mensal)
- Motocicletas: -0,41% (anual) | -0,09% (mensal)
- Implementos rodoviários: incluídos no total geral de 509.686 unidades
Motos: estabilidade técnica ou alerta amarelo?
Duas rodas registraram variação praticamente nula: -0,09% no mês e -0,41% no ano. A Fenabrave classifica como “estabilidade”. Na prática, significa que o segmento de entrada — sensível à renda e ao crédito — parou de crescer, mas não colapsou. Vale monitorar se a retomada do emprego formal reaquece essa base nos próximos meses.
Projeção de 5,3 milhões depende de outubro
A entidade manteve a previsão de alta de 8,6% para 2026, o que empurraria o total para além de 5,3 milhões de unidades. A ressalva é estratégica: a revisão final sairá em novembro, após o termômetro de outubro.
O risco está na manutenção dos incentivos e no comportamento da Selic. Se o crédito não der novo alívio, o ritmo atual de 4,2 milhões no acumulado (janeiro a setembro) pode perder tração no sprint final.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o fechamento do ano: a continuidade dos programas federais de fomento, a inadimplência das famílias — que ancora a liberação de financiamento — e o volume de dias úteis em outubro e novembro. Quem opera no setor deve traçar cenários com e sem renovação do Move Brasil; a diferença no fluxo de caixa pode ser expressiva.
