Economia

R$ 9,1 bi na B3: o retorno dos gringos é real ou apenas um alívio temporário?

Gráfico mostra fluxo de capital estrangeiro na B3 com destaque para entrada de R$ 9,1 bi em setembro
Entrada de R$ 9,1 bi de estrangeiros em setembro impulsiona Ibovespa, mas trimestre segue negativo

Estrangeiros injetaram R$ 9,1 bilhões na B3 em setembro, revertendo parte da fuga de agosto, mas o saldo do trimestre permanece no vermelho. A entrada de capital surpreendeu pela força, mas analistas divergem se o pior já passou ou se a volatilidade vai ditar o ritmo até o fim do ano.

O movimento ajudou o Ibovespa a fechar o mês com alta próxima de 5%, yet o cenário de fundo não mudou: juros americanos altos e incerteza fiscal local ainda assombram. Entenda o que moveu o tabuleiro nas últimas semanas e o que monitorar daqui para frente.

O choque de realidade nos números de setembro

Após uma sangria de R$ 18,11 bilhões em agosto, o fluxo externo voltou ao positivo. O dado, divulgado pela B3, mostra uma recuperação parcial, porém insuficiente para zerar as perdas do terceiro trimestre.

No acumulado de julho a setembro, o saldo é negativo em R$ 6,45 bilhões (excluindo ofertas primárias). Se considerados IPOs e follow-ons, o buraco sobe para R$ 4,7 bilhões. No ano, contudo, o estrangeiro ainda carrega ganhos robustos: R$ 27,4 bilhões positivos sem ofertas e R$ 32 bilhões com elas.

Por que o dinheiro voltou mesmo com Treasuries subindo?

O relatório Raio-XP de outubro aponta um paradoxo: a entrada ocorreu enquanto os rendimentos dos Treasuries disparavam. Em tese, juros altos nos EUA sugam capital de emergentes. A explicação reside no tabuleiro doméstico.

O mês foi dominado pela reprecificação do risco eleitoral. Mercados preditivos como Kalshi e Polymarket passaram a atribuir chances crescentes a uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) contra Lula (PT). A leitura do mercado: um governo de oposição sinalizaria maior austeridade fiscal.

O resultado imediato foi a queda dos juros futuros no Brasil, abrindo espaço para a bolsa. Fatores domésticos, portanto, sobrepujaram o vento contrário externo.

Recomposição ou mudança de tendência? A visão dos especialistas

Para Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, o movimento tem cara de “reposicionamento tático”, não de guinada estrutural. “Com preços mais atrativos após a correção de agosto e a expectativa de queda da Selic, a relação risco-retorno melhorou”, resume.

A XP Investimentos corrobora a cautela. O fluxo de setembro, embora bem-vindo, ainda é classificado como “modesto”. Uma virada de chave dependeria de um aumento sustentado do apetite a risco global — algo que não está no radar base para o curto prazo.

Os quatro pilares que vão ditar o fluxo no último trimestre

Segundo Murad, a continuidade da entrada de capital depende de uma equação de quatro variáveis. Nenhuma delas está totalmente sob controle:

  • Juros nos EUA: trajetória do Fed e nível dos Treasuries de 10 anos.
  • Selic: ritmo e magnitude do ciclo de corte iniciado pelo Copom.
  • Câmbio: nível do dólar que torna ativos brasileiros “baratos” ou “caros”.
  • Percepção Fiscal/Eleitoral: credibilidade do arcabouço e desdobramentos da corrida presidencial.

Se o ambiente externo colaborar e o Brasil mantiver a perspectiva de afrouxamento monetário, o fluxo pode seguir positivo. A ressalva: a volatilidade será a norma, não a exceção.

O que o investidor deve observar nas próximas semanas

O fechamento do terceiro trimestre deixa um recado claro: o capital estrangeiro é sensível a gatilhos de curto prazo, especialmente juros e política. Não há sinal verde definitivo para uma onda de alta sustentada.

Daqui para frente, monitore a ata do Copom e os leilões do Tesouro para medir a disposição do estrangeiro na renda fixa — porta de entrada tradicional para a bolsa. No calendário político, qualquer pesquisa que altere drasticamente as probabilidades eleitorais move o câmbio e a curva de juros na mesma sessão. A liquidez segue abundante, mas seletiva.