Três redes de farmácias listadas na B3 viram R$ 1,6 bilhão evaporar de seu valor de mercado em apenas cinco pregões. O gatilho foi o anúncio do Mercado Livre, em 24 de setembro, de que passaria a vender medicamentos com receita — incluindo antibióticos e canetas emagrecedoras — e a abrir seu marketplace para drogarias parceiras. A reação do mercado foi imediata. Mas o que vem a seguir pode ser mais relevante do que a queda em si.
O choque regulatório que ninguém esperava
A Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) não esperou: oficiou a Anvisa no dia seguinte. O órgão notificou a plataforma exigindo detalhes sobre a regularidade da operação — responsabilidade técnica, farmacêutico responsável, cumprimento das normas de drogaria. O ponto central: ainda não existe norma que autorize a venda de medicamentos em marketplaces.
Para analistas do Santander, a notificação é um “obstáculo regulatório de curto prazo”, não um revés definitivo. O BTG Pactual vê o movimento como “ruído grande” que pesou nas ações, mas reconhece que as redes tradicionais têm vantagens estruturais: capilaridade, relacionamento com a indústria e sortimento amplo.
Números que explicam o temor dos investidores
Entre 23 e 26 de setembro, as três ações fecharam no vermelho:
- RD Saúde (Raia e Drogasil): -4,11% no acumulado da semana
- Pague Menos: -6,63%
- Panvel: -3,23%
Juntas, perderam R$ 1,6 bilhão em valor de mercado. No dia 27, porém, todas subiram forte — RD Saúde +4,11%, Pague Menos +6,63%, Panvel +3,23% — em sessão de alta do Ibovespa. A volatilidade expõe o nervosismo: o mercado não sabe precificar o risco regulatório nem o competitivo.
A lei que abriu a porta — e a lacuna que travou
Em março, o presidente Lula sancionou lei que autoriza farmácias a contratar canais digitais e plataformas de e-commerce para logística e entrega. O problema: a regulamentação pela Anvisa ainda não saiu. Não há prazo. O processo foi aberto, mas as regras de contratos, requisitos de “última milha” e responsabilidade compartilhada seguem indefinidas.
Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma, resume o impasse: “É preciso entender o que a legislação vai exigir, o que a agência vai considerar como logística e entrega, quais serão os requisitos e como deverão ser os contratos entre farmácias e plataformas.”
O que o Mercado Livre já faz — e o que quer fazer
A plataforma não esperou a regulamentação final. Desde março, vende medicamentos isentos de prescrição (MIPs) por meio de uma farmácia própria, comprada em 2023. Em 25 de setembro, incluiu tarja preta e controlados: antibióticos, canetas de semaglutida, receituário especial. Diz que cada receita passa por validação de farmacêutico próprio antes da liberação logística.
Além da venda direta, o modelo marketplace prevê 20 farmácias parceiras integradas na Grande São Paulo até o fim do ano, com entrega em até 60 minutos. A Abrafarma questiona justamente essa “última milha”: quem responde pelo produto no trajeto? A plataforma alega que a responsabilidade é do vendedor — o que, para medicamentos, torna a cadeia de custódia sensível.
Anúncios irregulares: o flanco que preocupa a entidade
Levantamento da Abrafarma analisou 7.170 anúncios no Mercado Livre, 2.222 no escopo de disfunção erétil. Resultado: 55% apresentaram ao menos uma irregularidade — substâncias não autorizadas, associação indevida a marcas, indícios de falsificação, promessas de aumento peniano. Foram identificados cerca de 1,2 mil anúncios problemáticos.
“Já observamos a venda de produtos legítimos ao lado de produtos ilegais ou não registrados na Anvisa”, diz Mena Barreto. A entidade defende que a plataforma seja corresponsável pela qualificação dos vendedores. O Mercado Livre responde que remove anúncios que ferem seus Termos de Uso e que atua com monitoramento, tecnologia e equipes especializadas em categorias de saúde.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo das ações e do setor nos próximos meses: (1) o desfecho da notificação da Anvisa — se houver sanção ou exigência de adequação que atrase a expansão; (2) a publicação da regulamentação da lei de março, que definirá regras de contratos, logística e responsabilidade técnica; (3) a capacidade das redes tradicionais de acelerar seus próprios canais digitais e de “última milha” antes que o marketplace ganhe escala. Quem chegar primeiro ao consumidor com conformidade regulatória leva a vantagem. O mercado já precificou o susto. Agora, precifica a execução.
