A Agência Internacional de Energia (IEA) revisou suas estimativas e agora prevê queda de 0,5% nas emissões globais de CO₂ provenientes de combustíveis fósseis em 2026. O gatilho foi o conflito no Irã, que sacudiu a oferta de petróleo e gás. Em volume, são cerca de 190 milhões de toneladas a menos que em 2025 — número que parece expressivo, mas representa uma fração das quase 40 bilhões de toneladas lançadas na atmosfera a cada ano.
A reviravolta é rara: quedas anuais nas emissões fósseis aconteceram poucas vezes nas últimas três décadas. Mas especialistas alertam: não há sinal de mudança estrutural. O que estamos vendo é um choque conjuntural de preços e logística, não uma transição energética consolidada.
O petróleo virou o jogo sozinho
Em janeiro, a IEA projetava alta de 930 mil barris por dia na demanda global de petróleo. Em setembro, a previsão virou queda de 2,5 milhões de barris/dia frente a 2025. Esse giro de 3,4 milhões de barris/dia explica a maior parte da revisão nas emissões.
O gás natural seguiu o mesmo roteiro: a expectativa de crescimento deu lugar a retração, pressionada por restrições de oferta e preços mais altos. Juntos, petróleo e gás empurraram a projeção para 454 milhões de toneladas abaixo do nível de 2025.
Carvão bate recorde e anula parte do ganho
Enquanto óleo e gás recuam, o carvão caminha na direção oposta. A IEA prevê consumo mundial de 8,94 bilhões de toneladas em 2026 — alta de 1,2% e novo recorde histórico. Países recorreram ao combustível mais sujo para compensar a instabilidade nos demais mercados.
Esse efeito substituição consumiu 263 milhões de toneladas da redução projetada. O saldo final, de 191 milhões de toneladas a menos, nasce da tensão entre duas forças: choque de oferta no petróleo/gás e corrida ao carvão como refúgio.
- Petróleo: -2,5 milhões bpd na demanda vs. 2025
- Gás: projeção passou de alta para queda
- Carvão: +1,2% para 8,94 bi ton (recorde)
- Saldo líquido: -191 milhões ton CO₂ vs. 2025
O perigo de confundir cicatriz com cura
Claudio Angelo, do Observatório do Clima, resume o risco: “Pode até ser que as emissões fiquem meio estáveis, ou tenha uma pequena queda nesse ano. Mas não é isso que vai resolver a mudança climática.” A história apoia a cautela. Em 2009, crise financeira derrubou emissões; em 2010, voltaram a subir. Em 2020, pandemia causou tombo de 5%; em 2021, recuperação total.
O choque atual atinge preços e abastecimento — variáveis que podem se normalizar. A própria IEA projeta recuperação da demanda por petróleo já em 2027. Se o conflito arrefecer ou a oferta se ajustar, a queda de 2026 vira apenas um ponto fora da curva.
Atmosfera não sente alívio
Mesmo que a projeção se confirme, a concentração de CO₂ segue subindo. Em 2024, a média global chegou a 423,9 partes por milhão — 52% acima do nível pré-industrial. Em 2026, medições em Mauna Loa (Havaí) já superaram 430 ppm no pico anual.
Uma redução de 0,5% apenas diminui marginalmente a velocidade de acumulação. O gás permanece na atmosfera por séculos. O que importa para o clima não é a variação de um ano, mas a trajetória de longo prazo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se 2026 marca um ponto de inflexão ou apenas um soluço:
- Duração do conflito e sua capacidade de manter preços elevados por tempo suficiente para mudar decisões de investimento.
- Resposta política: pacotes de estímulo verde vs. subsídios a fósseis como resposta à crise energética.
- Comportamento do carvão: se o recorde de 2026 vira platô ou continua crescendo, o efeito líquido do choque no Irã pode ser nulo ou negativo.
O choque no Irã expôs a fragilidade de um sistema ainda dependente de geografias instáveis. A pergunta que fica não é quantas toneladas deixam de ser emitidas em 2026, mas se governos e empresas usarão a volatilidade como pretexto para acelerar a eletrificação e as renováveis — ou apenas trocarão um fóssil por outro mais sujo.
