O herdeiro bilionário David Ellison escolheu Ynon Kreiz, atual CEO da Mattel, para dividir o comando da Paramount Skydance e tocar a integração da aquisição de US$ 110 bilhões da Warner Bros. Discovery. A nomeação surpreende pelo perfil “fora da caixa” do executivo, mas revela a estratégia de quem aposta em gente — e não apenas em planilhas — para virar o jogo no streaming.
Kreiz não é um executivo de mídia tradicional. Sua maior credencial recente foi transformar uma fabricante de brinquedos em potência de propriedade intelectual, culminando no fenômeno “Barbie”. Agora, ele traz para Hollywood um manual de liderança baseado em três pilares: coragem para quebrar convenções, olhar atento para talentos invisíveis e a convicção de que conexão humana supera algoritmo.
O barista que virou engenheiro sênior
A história mais contada por Kreiz em palestras — como a que fez na Wharton School — não envolve boardrooms, mas uma cafeteria nos fins de semana. Ele notou a eficiência de um atendente e puxou conversa. Descobriu um refugiado iraniano, formado em ciência da computação, que aprendeu inglês sozinho e sobreviveu três anos em campos na Turquia antes de chegar aos EUA.
Sem currículo corporativo, o homem tinha apenas o “doutorado da vida”: resiliência extrema. Kreiz o indicou para um estágio na Mattel. Hoje, o ex-barista integra a equipe global de tecnologia da empresa como um dos melhores desempenhos.
A lição prática: “Olhe para cima e faça contato visual”, repete o executivo. Em era de IA e trabalho remoto, a interação presencial virou diferencial competitivo.
Três décadas de apostas não lineares
A trajetória de Kreiz até o topo da Paramount não seguiu roteiro de manual. Nascido em Israel, filho de engenheiro e psicóloga, traçou um plano de sete anos para conquistar o mercado americano. Cumpriu serviço militar, formou-se em Tel Aviv, fez MBA na UCLA.
O divisor de águas veio ao conhecer Haim Saban, magnata da programação infantil. “Meu doutorado foi com Haim”, costuma dizer. Juntos, ergueram a Fox Kids Europe, vendida à Disney em 2002. Depois, comandou a Endemol (criadora do Big Brother), passou por venture capital e salvou a Maker Studios, vendendo-a à Disney por US$ 500 milhões em 2016.
Assumiu a Mattel em 2018, após a empresa trocar quatro CEOs em quatro anos. Estabilidade zero. Ele herdou o caos e propôs a virada: de fábrica de plástico para estúdio de franquias.
A aposta de US$ 1,4 bi que ninguém entendeu
Quando o roteiro do filme “Barbie” chegou às mãos de Kreiz, a Mattel era retratada como vilã fascista e o CEO, como bufão chauvinista. O conselho jurídico e de marca tremia. A decisão padrão seria sanitizar o script.
Kreiz fez o oposto. Deu carta branca a Greta Gerwig e Margot Robbie. Aceitou a sátira. O resultado: maior bilheteria de 2023 (US$ 1,4 bi global) e salto de 16% nas vendas de bonecas no trimestre seguinte. A piada interna virou ativo bilionário.
- Princípio: “Nem toda boa ideia tem precedente.”
- Risco: Apostar a visão estratégica da empresa num filme que a ridicularizava.
- Retorno: Relevância cultural + receita recorde + credencial para comandar fusão de gigantes.
O que muda na Paramount Skydance agora
A missão imediata é integrar ativos da Warner Bros. Discovery numa estrutura que sangra assinantes e busca identidade no streaming. Kreiz chega com mandato operacional: cortar redundâncias, alinhar franquias (Mission Impossible, Star Trek, CBS, MTV) e criar “universos” rentáveis — exatamente o que fez com Barbie, Hot Wheels e Thomas & Friends.
Mas o efeito mais relevante pode aparecer na cultura. Um líder que contrata refugiado barista e aprova roteiro que o chama de chauvinista sinaliza tolerância ao risco calculado e zero vaidade. Em setor travado por egos e dados atrasados, isso é moeda rara.
O que observar nos próximos 180 dias
Três sinais dirão se a aposta de Ellison valeu a pena: velocidade na sinergia de custos pós-fusão (meta não declarada, mas esperada em 15-20% no SG&A), lançamento de pelo menos duas novas franquias cross-studio até 2026 e, principalmente, retenção de talentos-chave da Warner. Se a “filosofia do barista” escalar para 20 mil funcionários, a Paramount pode deixar de ser alvo de aquisição para virar compradora. Fique de olho nos anúncios de desenvolvimento de IP — eles dirão mais que qualquer balanço trimestral.
