A Starbucks inaugurou duas cafeterias em Urumqi, capital de Xinjiang, região onde a ONU aponta indícios de crimes contra a humanidade contra a minoria uigur. A abertura, celebrada pela mídia estatal chinesa, provocou reação imediata de parlamentares americanos e organizações de direitos humanos.
O comitê da Câmara dos EUA sobre a China classificou a expansão como “moralmente indigna”. O Congresso Mundial Uigur acusou a rede de fechar os olhos para uma economia sustentada por trabalho forçado imposto pelo Estado.
O que está por trás da expansão
A região recebeu investimentos massivos de Pequim e figurou entre as de crescimento mais acelerado do país em 2025. O governo chinês nega as acusações e afirma que suas políticas erradicaram o extremismo e impulsionaram o desenvolvimento econômico local.
Para a Starbucks, Xinjiang representa uma aposta estratégica. No ano passado, a empresa vendeu a participação majoritária de suas operações chinesas ao fundo Boya Capital, num movimento para revitalizar o desempenho no segundo maior mercado global da marca.
Cronologia das denúncias
- 2022: Relatório da ONU alerta para possível detenção de mais de um milhão de uigures e outras minorias em “campos de reeducação”
- 2022-presente: Organizações independentes documentam continuidade de trabalho forçado na região
- 2024: EUA mantêm sanções comerciais vinculadas a Xinjiang
- 29/10/2024: Inauguração das duas lojas em Urumqi
Marcas ocidentais que mantêm cadeias de fornecimento ou operações na região vêm enfrentando pressão crescente de consumidores, investidores e legisladores nos últimos anos.
O cálculo de risco para multinacionais
Operar em Xinjiang expõe empresas a dois vetores de risco simultâneos. De um lado, sanções americanas e legislações como a Lei de Prevenção do Trabalho Forçado Uigur (UFLPA) criam barreiras legais e reputacionais. Do outro, o mercado chinês pune publicamente marcas que se curvam a pressões externas — como ocorreu com H&M e Nike em 2021.
A Starbucks tenta navegar esse cenário sob nova estrutura societária. O controle majoritário da Boya Capital, fundo com profundos laços estatais, pode oferecer blindagem política local. Mas não elimina a exposição regulatória nos EUA e na Europa.
O que observar nos próximos meses
Relatórios de auditoria independente sobre condições de trabalho nas novas unidades devem ser o primeiro teste concreto. A resposta da Starbucks a eventuais pedidos de transparência da SEC ou de comitês congressionais definirá o precedente para outras redes que avaliam expansão na região. Investidores com mandatos ESG já começaram a revisar posições no setor de consumo chinês.
