O JPMorgan vê o varejo brasileiro pronto para uma reprecificação violenta se a eleição trouxer alívio fiscal, mas avisa: as ações mais óbvias já andaram demais. O banco mantém recomendação de venda para Magazine Luiza, mesmo após o papel disparar 60% no mês. A oportunidade real, segundo a análise, está em nomes menos alavancados e com assimetria mais favorável.
O ponto de partida: varejo a preço de banana
O setor negocia a cerca de 8 vezes o lucro projetado, menos da metade da média histórica de cinco anos (15 vezes). O desconto mediano chega a 58% frente à década passada. C&A, Renner e Riachuelo lideram a pechincha, com descontos entre 65% e 78% sobre suas médias de dez anos.
Esse chão de fábrica amplifica a sensibilidade ao resultado das urnas. Uma melhora na percepção de risco derruba juros, câmbio e custo de capital — gatilhos diretos para múltiplos deprimidos. O JPMorgan projeta potencial médio de 30% até os preços-alvo de dezembro de 2027, mas alerta: não espere que os múltiplos voltem ao passado. O amadurecimento das empresas exige uma reprecificação estrutural, não apenas cíclica.
Magalu e Assaí: os “betas” que o mercado já comprou
Quando o critério é pura sensibilidade a juros, Magazine Luiza e Assaí são os reis. Uma queda de 100 pontos-base na Selic injetaria cerca de 10% no lucro projetado do Magalu para 2028 e 5% no do Assaí. As demais varejistas mal sentem 2%.
O problema é o preço da entrada. O Magalu já superou o Ibovespa em 30% no movimento recente; o Assaí, em 25%. Parte relevante da tese “juros baixos” está no preço. No Assaí, a recomendação é neutra (alvo R$ 11), sustentada pela resiliência do varejo alimentar. No Magalu, a visão é mais dura: underweight (venda). Quase todo o lucro depende de incentivos fiscais, e juros menores comprimem a margem bruta ao reduzir a receita financeira embutida nas vendas a prazo.
Houve revisão positiva nas estimativas — receita +6% e lucro +24% para 2027 —, impulsionada pela liquidação da Casas Bahia e parceria com o Mercado Livre. Ainda assim, o banco prefere não apostar na ação.
A virada de mesa: C&A, Renner e Riachuelo
É aqui que a assimetria aparece. As três varejistas de moda combinam múltiplos deprimidos, balanços menos esticados e expectativas já no chão. Negociam próximas ou abaixo do valor patrimonial, apesar de entregarem retorno sobre capital acima do custo de capital.
Isso cria um colchão: se a eleição decepciona, a queda é limitada. Se juros caem, a reprecificação é expressiva. O JPMorgan destaca:
- C&A (CEAB3): Maior potencial de reprecificação. Negocia a ~5,5x P/L. Recomendação overweight (compra), alvo R$ 13,50.
- Renner (LREN3): Deve reagir primeiro pela liquidez e peso nos índices. Neutra, alvo R$ 16.
- Riachuelo (RIAA3): Overweight, alvo R$ 9,50. Espaço para ganhos de produtividade — a empresa ainda fica atrás das pares nessa métrica.
Fora do radar: Smart Fit e RD Saúde
Duas apostas estruturais fogem do varejo discricionário clássico. A Smart Fit (SMFT3) virou “fonte de funding” para vendidos em alta beta, criando oportunidade de squeeze. Embora só 40% do negócio esteja no Brasil, seu valuation segue atrelado ao custo de capital local. Overweight, alvo R$ 30.
A RD Saúde (RADL3) é ainda mais sensível: -100 bps no custo de capital próprio eleva o valor justo em 21%. Negocia a 14,5x o lucro de 2027 (vs. 18x justo do banco) e tem baixa ciclicidade. Overweight, alvo R$ 28.
Eleição não resolve o bolso do consumidor
O alerta mais forte do relatório: não confunda alta de ação com melhora de fundamentos. Para 2027, o JPMorgan prevê consumo travado independentemente do vencedor. Endividamento das famílias, serviço da dívida caro, inadimplência subindo e crédito seletivo formam uma barreira real.
Medidas eleitorais — restrição a bets, Desenrola 3.0, Bolsa Família turbinado — dão alívios pontuais, mas são desiguais e não recorrentes. A inflação de alimentos segue corroendo a renda baixa e média mesmo com IPCA geral comportado.
Lucros ainda descendo a ladeira
A cautela já bate nas planilhas. O lucro líquido projetado para 2027 foi cortado 2% na média (5% na mediana). Os vilões: desaceleração do consumo, guerra promocional, pressão de alavancagem operacional e, cada vez mais, a concorrência internacional.
Em agosto, o volume de encomendas via Remessa Conforme saltou 84% no ano. Em reais, importações subiram 78%. Vestuário, beleza, calçados e itens de baixo tíquete são os mais expostos a Shein, Shopee e cia.
O que observar daqui para frente
O cenário desenha um divórcio de curto prazo: a eleição pode derrubar juros e disparar as cotações numa reprecificação rápida, mas vendas e lucros demorarão a responder. A estratégia do JPMorgan, portanto, privilegia a assimetria de C&A, Renner e Riachuelo em vez de perseguir o beta puro de Magalu e Assaí — que já cobram caro pelo ingresso.
Para o investidor, o foco deve ser: quão rápido o custo de capital cai versus quão lento o consumidor se recupera. Quem comprar apenas o otimismo eleitoral corre o risco de segurar posições caras num 2027 ainda difícil.
