O conselho da Raízen aprovou o roteiro final para colocar em prática o maior plano de recuperação extrajudicial do agronegócio brasileiro. A assembleia geral extraordinária marcada para 30 de outubro, em formato virtual, será o palco onde acionistas darão a palavra final sobre uma reestruturação que envolve R$ 61,4 bilhões em dívidas e redesenha completamente o capital da companhia.
Em jogo, está a transformação de uma estrutura societária complexa em um modelo com três classes de ações e a estreia de units — certificados que combinam papéis ordinários e preferenciais sob um único código de negociação. Para o investidor, a pergunta central é: como ficam a liquidez e o poder de voto após a conversão de 45% da dívida em equity?
O que será votado na prática
A pauta da assembleia vai muito além da eleição do novo conselho de administração. Quatro pilares sustentam a proposta da diretoria e alteram a “anatomia” financeira da Raízen:
- Capital autorizado: limite sobe para 200 bilhões de ações, dispensando reforma estatutária futura;
- Redução de capital: até R$ 35 bilhões devolvidos via distribuição de ativos da Raízen Energia S.A.;
- Nova classe de ações: criação de preferenciais Classe B (com prioridade em proventos, sem voto) mantendo as Classe A;
- Programa de Units: cada unit agrupa 1 ação ordinária (voto) + 1 preferencial Classe A (dividendos).
Se aprovado, o capital social passa a ter ordinárias (ON), preferenciais Classe A (PNA) e preferenciais Classe B (PNB). As duas classes preferenciais terão preferência no recebimento de proventos, mas apenas as ON mantêm direito a voto nas assembleias gerais.
A engenharia por trás da recuperação
Homologado em 30 de julho com adesão de 81,6% dos credores, o plano prevê a conversão de 45% dos créditos em participação acionária ao preço de R$ 0,25 por ação. Os 55% restantes migram para novos títulos de dívida, alongando prazos e ajustando custos.
O aporte de “dinheiro novo” soma R$ 4 bilhões comprometidos: R$ 3,5 bilhões da Shell (controladora) e R$ 500 milhões ainda em estudo pelo grupo Cosan, de Rubens Ometto. Esse fôlego financeiro bancará o programa de desinvestimentos e a separação operacional entre o negócio de distribuição de combustíveis e a produção de etanol e cana-de-açúcar — fusão feita em 2011 e que agora será desfeita.
Por que a criação de units muda o jogo
A emissão de units é a peça mais inovadora da reestruturação. Ao empacotar 1 ON + 1 PNA, a Raízen busca atrair o investidor de varejo e fundos que prezam pela simplicidade: um único ativo, negociado com alta liquidez, que carrega tanto o direito a voto quanto a preferência em dividendos.
Na prática, isso pode resolver o histórico desconto de liquidez entre as classes de ações atuais. Porém, exige atenção: a diluição dos atuais acionistas minoritários será significativa com a entrada dos credores no capital social via conversão da dívida.
O que observar daqui para frente
A aprovação em assembleia é apenas o gatilho. Os próximos passos ditam o ritmo da geração de valor: a execução do plano de desinvestimentos (quais ativos saem e a que preço), a efetiva segregação das unidades de combustíveis e bioenergia, e a capacidade da nova governança de entregar sinergias operacionais.
Para quem acompanha o setor, o termômetro está na precificação das units no mercado secundário nas semanas seguintes a 30 de outubro. Se a estrutura atrair fluxo comprador consistente, a Raízen valida o modelo e reduz seu custo de capital. Caso contrário, a pressão vendedora dos credores convertidos em acionistas pode testar o piso de R$ 0,25 por ação muito antes do previsto.
