O mercado de capitais brasileiro bateu recorde histórico em 2025: R$ 838,8 bilhões em emissões corporativas, segundo a ANBIMA. Pela primeira vez, o estoque de crédito via mercado superou o bancário, sinalizando uma mudança estrutural no financiamento das empresas.
Esse cenário turbinou gestoras especializadas. O Patria Investimentos, por exemplo, viu seus ativos em crédito saltarem de R$ 23,6 bilhões para R$ 70,4 bilhões em apenas três anos. Como uma casa de alternativos consegue triplicar de tamanho num setor que antes era “apêndice” dos bancos?
A engenharia que foge do óbvio
Para Alexandre Coutinho, head de crédito da gestora, a virada de chave veio de três pilares: regulação moderna, infraestrutura de mercado e novos instrumentos. “O crédito privado virou estratégia para quem precisa de capital fora do balanço bancário e para quem busca prêmio sobre o risco soberano”, resume.
O diferencial do Patria, no entanto, não é apenas surfar a onda. A tese repousa em uma equipe de mais de 40 especialistas na América Latina e no conhecimento profundo de cadeias reais — herança das áreas de *real estate* e infraestrutura. Isso permite originar e estruturar operações “dentro de casa”, fugindo do mercado secundário.
Como funciona o “motor” proprietário
O carro-chefe dessa abordagem é o fundo Patria Crédito Estruturado 365. Diferente da maioria dos fundos de renda fixa privada, ele não compra papéis prontos. A gestora estrutura as operações do zero, direcionando recursos para pequenas e médias empresas via securitizações pulverizadas.
O modelo busca resolver dois problemas simultâneos:
- Para a empresa: acesso a funding com governança, fora do gargalo bancário.
- Para o investidor: carteira diversificada, retorno incremental e risco mitigado por análise case a case.
Em agosto, o veículo contava com 49 operações ativas — 45 securitizações e 4 dívidas corporativas diretas —, além de colchão de liquidez. A pulverização é a chave para diluir o risco idiossincrático.
Da estruturação à escala: a jogada dos FIDCs
O sucesso do 365 gerou um “filhote” previdenciário: o Patria Previdenciário, já distribuído nas plataformas da XP e do BTG Pactual. Mas a expansão não parou no orgânico.
Em janeiro, a gestora adquiriu 51% da Solis Investimentos, especialista em FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios). A casa traz na bagagem R$ 28 bilhões sob gestão, 120 fundos ativos e 30 mil cotistas. A aquisição plugou o Patria instantaneamente no segmento que mais cresce no crédito pulverizado brasileiro.
“A Solis amplia nossa fábrica de ativos e abre canais de funding sob medida para o emissor”, explica Coutinho. A sinergia une a capacidade de originação do Patria à esteira operacional da Solis.
O que observar daqui para frente
O cenário macro segue favorável: a necessidade de diversificação de funding das empresas não arrefeceu, e o apetite por prêmio de crédito privado persiste. A equação agora passa pela capacidade de manter a qualidade do underwriting num volume 3x maior.
Para o investidor profissional, o sinal claro é a migração do crédito privado de “alternativo de nicho” para “alocação core”. Fundos com estruturação proprietária e acesso a originação exclusiva tendem a capturar o *spread* de iliquidez que o mercado secundário comprime. Acompanhe a evolução dos índices de inadimplência nas carteiras pulverizadas — será o termômetro real da solidez dessa nova era.
