Tecnologia

IA recria rostos de escravizados: o passado que ninguém viu…

Retrato gerado por IA de pessoa escravizada no Brasil do século XIX, projeto Biografias Imaginadas UFRJ
Inteligência artificial reconstrói rostos de pessoas escravizadas a partir de documentos históricos da UFRJ.

Pesquisadores da UFRJ estão usando inteligência artificial generativa para devolver rosto e identidade a pessoas escravizadas no Brasil do século XIX. O projeto Biografias Imaginadas já produziu três retratos a partir de processos penais e anúncios de jornal da época. O livro com o resultado completo deve sair no ano que vem.

Mas a tecnologia não apenas acelera a pesquisa — ela expõe falhas históricas que ainda moldam o presente. O que mais essa investigação pode revelar?

Como a máquina aprendeu a ler o século XIX

A historiadora Marialva Barbosa, da Escola de Comunicação da UFRJ, coordena o trabalho. A base documental vem do Arquivo Nacional e do Tribunal de Justiça do Rio: fichas de prisioneiros da Casa de Detenção da Corte e anúncios de fugas publicados em jornais da época.

O processo segue etapas rigorosas:

  • Leitura e digitalização dos documentos originais com apoio de IA
  • Extração de descritores físicos: textura do cabelo, formato do nariz, tamanho da boca e dos olhos
  • Construção de prompts detalhados para a IA generativa
  • Verificação palavra por palavra das imagens geradas

“Quando eu faço rosto, é com base nas descrições dos jornais, da ficha. E são as descrições das características deles mesmos”, explica a pesquisadora. Cada imagem passa por checagem minuciosa antes de ser validada.

De seis meses para 15 dias: o ganho de escala

O impacto na produtividade é concreto. A leitura de um único processo penal, que antes consumia seis meses de trabalho manual, agora é feita em 15 dias. A IA consegue decifrar a caligrafia do século XIX — os “garranchos” que travavam pesquisadores há décadas.

Mas a tecnologia impõe suas armadilhas. “Se eu deixar qualquer coisa, qualquer brecha, ela faz errado. Ela faz um calçamento de paralelepípedo, não existia isso na época”, alerta Barbosa. O controle de qualidade exige reiterações constantes nos comandos.

Marcas de nação: a identidade antes do cativeiro

Um cuidado metodológico distingue este projeto: a inclusão de marcas de nação — sinais corporais que indicavam a origem étnica da pessoa antes de ser escravizada. No retrato de Manoel Moçambique, por exemplo, a identidade banto foi preservada visualmente.

São sete personagens mapeados até agora, com três imagens finalizadas. A meta é ampliar o acervo para incluir também pessoas ex-escravizadas em idade avançada, cujas trajetórias raramente aparecem no registro iconográfico tradicional.

O projeto paralelo na Bahia

Não é iniciativa isolada. O Arquivo Público da Bahia desenvolve o Fragmentos da Memória, com objetivo semelhante: reconstruir retratos de pessoas escravizadas a partir de documentação arquivística. Duas frentes independentes convergem para o mesmo vazio histórico.

Por que isso importa para quem decide hoje

“Eles não eram considerados como pessoas que tivessem qualquer humanidade. Eram considerados sempre como mercadorias”, afirma Barbosa. A pesquisadora conecta a ausência de representação visual à naturalização do racismo cotidiano: “Foi tão forte na sociedade brasileira que você produz racismo cotidiano sem achar que está produzindo.”

O uso da IA aqui não é neutro. “A IA coloca em risco a humanidade, mas pode mostrar que houve outras humanidades que não são consideradas até hoje. É um uso contemporâneo das possibilidades para mostrar o nosso incontornável passado.”

O que observar nos próximos meses

A publicação de Vidas Escravizadas em 2025 será o primeiro teste de recepção pública desse acervo visual. Acompanhe: a ampliação da base de personagens, a eventual adoberta de metodologia semelhante por outros arquivos estaduais e o debate sobre limites éticos da IA na reconstituição histórica de populações subalternas. O passado reconstruído por algoritmos pode redefinir como empresas, instituições e formuladores de políticas encaram a memória — e a reparação — no Brasil.